Título do original em inglês






descargar 0.6 Mb.
títuloTítulo do original em inglês
página8/30
fecha de publicación16.03.2016
tamaño0.6 Mb.
tipoDocumentos
l.exam-10.com > Derecho > Documentos
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   30

VI
A ledora da buena-dicha


Por que buscas, mortal, tão curioso,
Do futuro os eventos conhecer?
Bons ou maus, para ti nunca trarão gozo;
Se são bons, roubam-te a dita da esperança;
Se são maus, ficas privado da bonança,
Que precederia a hora do sofrer.


Dryden
Durante a última parte do meu tempo de colegial, deu-se comigo um incidente que, apesar de não pertencer rigorosamente à categoria das experiências que tenho de narrar, parece ter com elas alguma semelhança ou relação.

Eu estava passando alguns dias de férias com uma colega da escola, apenas mais velha um ano do que eu, porém muitíssimo mais experiente do mundo. Ela estava de visita em casa de uns primos, quando recebeu a notícia de que se achava nas vizinhanças de Bloomsbury, se bem me recordo, uma dama misteriosa, que gozava da faculdade de ver e predizer o futuro.

– Não é propriamente uma ledora de buena-dicha – disse-me Alice –, mas coisa superior, uma senhora da sociedade. Vive em uma bela casa, tem criados, etc. Meus primos afirmam ter-lhe ouvido dizer as coisas mais admiráveis.

– Eu julgava que somente as boêmias podiam ler a buena-dicha – disse eu, profundamente interessada por essa narração.

– Oh! Trata-se de uma coisa muito diversa. Meus primos disseram-me que pessoas perfeitamente distintas vão consultá-la a respeito de seus negócios e de suas aflições. Possuo o seu endereço. Não desejarias vê-la?

Qual a colegial que poderia resistir a tal tentação? Eu não era capaz. Antes de deitar-nos essa noite, discutimos sobre o caminho a seguir e os meios para fazermos a viagem; examinamos o estado das nossas respectivas finanças e assentamos os nossos planos de uma visita à dama misteriosa.

Alice não sabia quanto ia custar às nossas bolsas esse levantamento do véu do futuro e, cheias de dúvidas, perguntávamos se bastariam os nossos recursos.

Decidimo-nos pela experiência, e o dia seguinte viu-nos em demanda do quarteirão de Londres, onde a dama residia.

Como esse tempo já vai longe, não me posso recordar do nome nem do endereço da dama. Nem mesmo sei se algum dia os soube. Era Alice quem servia de guia em virtude de seu conhecimento da metrópole e da superioridade dos seus dezessete anos.

Chegando à casa, fomos aí introduzidas por um jovem pajem, trajando jaqueta de Eton, e entramos em uma sala que, à vista do brilhante sol da rua, pareceu-nos negra como um túmulo. Senti alguns arrepios de frio e uma impressão de angústia, quando olhei ao redor de mim.

Era uma sala octogonal, guarnecida de cortinas escuras que enfraqueciam a claridade das janelas. Em seus ângulos e entre as cortinas achavam-se colocados longos espelhos estreitos, indo do chão ao teto. Ao entrarmos, a sala pareceu-nos cheia de gente e somente quando os nossos olhos habituaram-se a essa meia obscuridade, pudemos reconhecer as nossas imagens nos espelhos. Havia alguma coisa de estranho no aspecto dessa sala, e eu começava a arrepender-me de ter ido aí, porém, sem manifestar a minha impressão, quando o pajem voltou e disse que a dama receberia uma de nós.

– Vai, Alice! – disse eu, e fiquei sozinha nessa triste sala, durante um tempo que me pareceu eterno.

Quando, enfim, ela voltou, eu, já habituada à meia-luz, pude notar que ela estava muito pálida e perturbada; por isso fiquei mais nervosa e assustada que nunca.

– Que há, Alice? Que foi que ela te disse?

– Quase nada. Creio que repete a todos o mesmo. Mas chegou a tua vez. O pajem te espera. Depois falarei.

Foi com certo temor e desejo de rir-me que acompanhei o pajem pelas escadas até à sala em que eu era esperada. Tanto quanto pude observar na meia obscuridade, essa sala tinha uma forma semelhante à outra e tapeçarias semelhantes, mas nada pude observar bem a não ser a mulher de longos cabelos brancos ou grisalhos, que lhe caíam pelos ombros em massas onduladas. Trajava de preto, seu rosto era pálido e fatigado, mas não posso dizer se era jovem ou velha. Eu tinha a impressão de alguma coisa de branco, de negro, de misterioso, e sentia um desejo quase irresistível de precipitar-me para fora, para o pleno sol. Fosse isso um fato da minha imaginação excitada ou qualquer outra coisa, o certo é que eu experimentava uma sensação estranha e penosa ante o aspecto dessa mulher de cabelos brancos, vestida de preto.

Meu pulso batia precipitadamente, e ainda ignoro se tinha vontade de rir ou de chorar.

Ela olhou-me por um momento, e depois pediu que me assentasse. Assentei-me na extremidade da cadeira mais próxima.

– Que sinal é esse que tendes no braço? – perguntou ela de repente.

Olhei logo para as mangas do meu casaquinho, mas, nada notando, balbuciei uma resposta qualquer. Ela não restou atenção a isso e continuou a falar com rapidez. Eu não podia apanhar-lhe senão uma palavra aqui e acolá, e perguntava a mim mesma o que ela estava dizendo. Depois de alguns minutos, compreendi que ela falava do meu futuro. Inutilmente procurei acompanhá-la e compreender o sentido das suas palavras; quanto mais isso tentava, mais as minhas idéias confundiam-se. Ela falava muito depressa, em uma entonação monótona, como uma pessoa que estivesse lendo em voz alta.

Ouvi uma ou duas frases referentes ao sinal do meu braço e à sua significação; depois, ela parou e, encarando-me com fixidez durante um ou dois minutos, disse bruscamente:

– Vossos olhos vêem coisas para as quais os outros são cegos. Que Deus vos auxilie. A vossa vida não será fácil.

Em seguida, retomou o seu tom monótono, mas não pude acompanhá-la. A sua observação acerca dos meus olhos desnorteara o meu pensamento. Quando cessou de falar, compreendi somente que o meu futuro estava predito.

Depois de alguma pausa, ela pediu-me que eu lhe dissesse as perguntas que desejava fazer. Eu certamente as tinha, mas nesse momento nada podia formular.

– Desejo saber... – disse eu hesitando e inquirindo a mim mesma o que preferia saber em primeiro lugar.

– Se vos casareis, não é verdade? – sugeriu ela.

– Sim.

– Estareis casada, no máximo, daqui a dois anos.

Então balbuciei uma pergunta.

– Ainda não vistes o homem que haveis de desposar – disse ela.

Seguiu-se uma pausa, durante a qual tentei recuperar a calma, pois que os preciosos minutos voavam e eu desejava saber muita coisa. Antes, porém, que eu pudesse falar, ela continuou:

– Vossa vida será estranha, cheia de acontecimentos e muito diferente das vidas comuns. Muita coisa vos há de acontecer; muitas misérias e sofrimentos virão sobre vós; desgostos tais como poucos os têm conhecido. Em compensação, porém, tereis maior celebridade do que aquela que é habitualmente concedida às mulheres. A vossa estrada é única entre mil e, entretanto, apesar de sitiada pelos perigos e por vossa falta de experiência, tereis o poder de guiar os outros e levá-los à felicidade.

Ela falou mais ainda; deu-me conselhos e avisos em um tom sério e amistoso. Eu tinha lágrimas nos olhos e sentia-me estrangulada.

Depois, deteve-se e disse simplesmente que eu podia partir.

Ergui-me, perguntando a mim mesma, com embaraço, se devia apertar-lhe a mão antes de deixar a sala; ela, porém, passou as mãos pelos olhos, como se estivesse fatigada, e fez soar uma campainha. O pajem entrou, deixando a porta aberta para mim, e logo fiz uma reverência de colegial e fui ter com Alice, que me saudou com estas palavras:

– Como te demoraste! Apressemo-nos em voltar para casa.

Alice esteve singularmente melancólica e silenciosa durante o nosso regresso; mas, afinal falou com esforço e com o maior desprezo pelos ledores da buena-dicha, em cujas palavras disse não acreditar.

– Que te disse ela? – perguntei.

– Nada mais que um amontoado de velhas histórias, das quais não me recordo nem de metade.

– Comigo sucede o mesmo; eu não sabia a princípio que ela estava predizendo o meu futuro; e, quando isso compreendi, já havia perdido toda a primeira parte do seu discurso e não podia entender o resto. Ela, porém, disse depois que me casarei dentro de dois anos, com alguém que ainda não vi. Disse-te também alguma coisa semelhante?

– Não; ela disse que não devo desejar casar-me.

– Meu Deus! É verdade isso? Não desejas casar-te?

– Naturalmente que me caso, louca! Caso-me, porque o meu casamento já está tratado.

Essa espantosa afirmação mudou o curso da conversação, e não foi senão chegando a casa que me lembrei subitamente da observação da dama acerca de um sinal que eu tinha no braço, e perguntei a Alice se lhe havia falado nisso.

– Não, eu mesma nada sei a respeito. Que é?

– É uma coisa curiosa; sobre o meu braço esquerdo, em baixo do ombro, há um pequeno sinal em forma de cruz, o qual, geralmente imperceptível, torna-se às vezes de um vermelho vivo e perfeitamente distinto à vista e ao tato. Ele estava então muito reconhecível; mas, como podia ela descobri-lo através das mangas do meu vestido e do meu casaquinho? Era uma questão insolúvel.

Algum tempo depois, Alice fez-me as suas confidências. A ledora da buena-dicha havia-lhe predito um acidente grave que a faria sofrer e principalmente morrer, segundo a sua idéia, como eu suponho, acrescentou Alice. então recordei-me da sua palidez, quando ela saíra da entrevista com a dama dos cabelos brancos, e da sua desconfiança com relação à lucidez dela, quando lhe predisse o seu futuro.

Tanto quanto me posso recordar, as palavras dessa mulher causaram em mim uma impressão profunda, e ainda longo tempo depois a observação por ela feita a respeito dos meus olhos, vendo o que outros não viam, deu-me grande consolo, apresentando-se incessantemente ao meu espírito.

Ela parecia querer dizer que essa faculdade não era totalmente desconhecida, deixando-me a esperança de que, em última análise, isso não era sintoma de um desarranjo mental.

Alice e eu deixamos o colégio ao mesmo tempo, e nunca mais nos tornamos a ver; porque, pouco depois, teve uma morte horrível.

Ela achava-se em Brighton, quando aí uma noite houve um incêndio. O hotel em que ela morava foi queimado até os alicerces. A pobre Alice morreu queimada com uma das criadas a quem buscava salvar. A profecia da ledora de buena-dicha cumpriu-se, pois, de um modo horroroso.

O que ela me disse a respeito de meu casamento realizou-se também, porque dois anos depois da nossa visita eu estava casada. Quanto ao resto da profecia sobre o meu futuro, os leitores julgarão por si mesmos como foi cumprida.
1   ...   4   5   6   7   8   9   10   11   ...   30

similar:

Título do original em inglês iconTÍtulo original: ai-mei título ingléS

Título do original em inglês iconA ser libre Título original en inglés: Your sacred self

Título do original em inglês iconTitulo original: the way of intelligence

Título do original em inglês iconTítulo original: The last barrier

Título do original em inglês iconTítulo de la obra original

Título do original em inglês iconTítulo Original: Confessions (1996)

Título do original em inglês iconTítulo Original: Deception Point

Título do original em inglês iconTítulo original IL pendolo di Foucault

Título do original em inglês iconTítulo Original: Confessions (1996)

Título do original em inglês iconTítulo original: Mother Teresa






© 2015
contactos
l.exam-10.com