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V
A tentativa misteriosa


“Nessa mesma hora uns dedos de mão de homem mostraram-se escrevendo, na frente do candeeiro, sobre o estuque da parede do palácio real, e o rei via esses dedos que escreviam.”

(Daniel, 5:5)
Durante um ou dois anos que passei na escola, fiquei, de alguma sorte, libertada dos meus sonhos e fantasmas. Minha educação tinha sido bastante descurada e, para recuperar o tempo perdido, eu era obrigada a estudar muito. Tinham-me colocado em uma classe de alunas muito mais jovens do que eu e, mesmo aí, achei-me, mais do que as minhas companheiras de classe, ignorante dos primeiros elementos de instrução; em menos de um ano, porém, eu havia estudado tanto que me foi permitido concorrer na leitura de muitos assuntos com as alunas das classes superiores.

Minha saúde era boa; o meu estudo era um gozo e eu prosseguia nele com ardor. Divertida e travessa entre as meninas da minha idade, tornei-me o elemento indispensável de todos os seus divertimentos.

Esse espírito de malícia tem suas desvantagens, pois que, no fim de algum tempo, eu era considerada a promotora de todas as estroinices que se descobriam; apesar disso, eu achava gosto nos estudos e amava as minhas professoras.

Muitas das antigas alunas terminaram os seus estudos ao mesmo tempo que eu. Nesse termo, devia efetuar-se um verdadeiro exame, e tanto as professoras como as alunas pareciam desejosas de colherem então as suas glórias.

Nas últimas semanas de maio, os nossos divertimentos foram postos de lado e o nosso salão barulhento ficou transformado em tranqüila sala de estudos. Quando findava o trabalho do dia, aí ficávamos ocupadas em fazer certos preparos destinados a produzir um grande efeito sobre os espectadores desses exames.

Meu trabalho achava-se em grande parte terminado, à exceção de um tema que eu devia descrever.

Minhas tentativas nesse sentido tinham obtido sempre, como resultado, verdadeiros fiascos; até então, as composições por mim assinadas eram mais devidas a uma das minhas camaradas de classe que aos meus infelizes esforços. Era uma coisa bastante conhecida que os temas de Lídia Oliva e os meus deviam ser trocados. Desta vez, porém, foi-nos em tom severo declarado que as composições deviam ser absoluta e inteiramente originais e que nenhuma de nós tinha a permissão de auxiliar ou receber auxílio de quem quer que fosse, na confecção desse trabalho.

Se bem me recordo, o assunto escolhido para mim foi “A Natureza” ou “O que é a Natureza”. O fim do prazo designado ia-se aproximando e eu estava cada vez mais desesperada, devido à minha incapacidade para escrever ao menos doze linhas sobre o assunto. Muitas vezes comecei assim: “A Natureza é a nossa mãe comum”, ou “A Natureza compreende tudo o que é o Universo”. Chegando, porém, a esse ponto, eu me detinha, não podendo achar uma outra frase que não me parecesse imperfeita, manca ou mesmo absurda. Eu ia estragando o meu papel, folha por folha, e não elaborava um começo de composição, senão para vê-lo terminar do mesmo modo. Todas as tardes, preparando os meus materiais de escrita, eu perguntava a mim mesma o que me aconteceria se no dia imediato não obtivesse melhores resultados. Todas as noites deitava-me com a decisão de não dormir, mas de refletir e tomar nota das minhas reflexões nas primeiras horas da manhã; depois de ter pousado a cabeça no travesseiro, porém, as minhas resoluções de nada serviam e eu ficava sem dar conta da minha tarefa.

Os dias pareciam voar. As alunas estavam ocupadas em copiar cuidadosamente as notas tomadas a lápis. Eu pensava com inveja nos progressos das suas composições, nos floreios da sua linguagem e no sorriso satisfeito com que elas contemplavam a sua obra. Tudo isso era, porém, inútil: quanto mais me penalizava, mais estúpida ficava. Nada mais podia fazer que chorar em segredo as minhas angústias.

Muitas vezes encerrava-me no meu quarto e pedia de joelhos que me viessem idéias; a prece, porém, não dava resultado e a minha cabeça ficava mais vazia que nunca.

“A Natureza é a nossa mãe comum...” Essas palavras começavam a soar aos meus ouvidos e a dançar diante dos meus olhos. Pareciam correr umas atrás das outras na minha cabeça vazia, jogando a cabra-cega, saltando ou reunindo-se até que me risse alto dos meus pensamentos.

Só faltavam três ou quatro dias para a chegada do grande momento. Todos os nossos desenhos, papéis e trabalhos de agulha tinham sido reunidos e as composições das outras já estavam entregues. Quando pediram a minha, respondi com hesitação que ainda não estava pronta.

Disseram-me que restava muito pouco tempo e que eu devia prepará-la sem demora.

Nessa noite muni-me de uma vela, papel e lápis e, depois que nos retiramos, assentei-me no meu leito, decidida a fazer alguma coisa. Mas, apenas tinha eu escrito de novo aquelas palavras terríveis, as vozes queixosas de minhas companheiras de quarto ordenaram que eu apagasse a vela, ameaçando-me de fazê-lo elas próprias, se eu não as atendesse. Não havia outro remédio senão obedecer. Voltei meu rosto para a parede e chorei até adormecer, resolvida entretanto a acordar ao alvorecer, a fim de escrever qualquer coisa.

Na manhã seguinte, porém, só fui despertada com o choque de uma esponja molhada que uma das minhas companheiras lançara sobre mim e tive a triste consciência da minha inépcia para cumprir as minhas resoluções.

Meu primeiro olhar foi para as folhas de papel e o lápis que eu colocara sobre a mesa ao lado do meu leito; as folhas estavam espalhadas e em desordem, algumas mesmo pelo chão. Abaixando-me com a cabeça e o coração perturbados, para apanhar tudo, vi que muitas dessas folhas estavam cobertas de escrita, e o meu primeiro pensamento foi, naturalmente, que na véspera, à noite, eu tinha trazido para o meu quarto rascunhos de escrita em vez de papel limpo. Mas, olhando de novo, reconheci nesses papéis a minha letra. Perplexa e espantada ao mesmo tempo, assentei-me, em camisola de dormir, à beira do leito, insensível às pilhérias das minhas companheiras, que se vestiam, zombando da minha preguiça ou do meu aspecto estudioso, como elas diziam alternadamente. Eu estava absorta na contemplação dessa escrita e não prestava atenção alguma ao que elas diziam. Surpresa e arrebatada, li com ardor, uma depois da outra, essas páginas.

Não sabia como essa escrita se achava ali, mas a princípio não pensei nisso, pois me entreguei ao prazer de ler esses belos pensamentos, expressos em frases tão simples e poéticas.

– Vinde cá, minhas amigas – disse eu –, escutai isso; e comecei a ler em voz alta:

“No começo, Deus fez o céu e a terra, e a terra produziu as plantas, e as plantas deram sementes de sua espécie; as árvores produziram frutos, cujas sementes eram das suas espécies, e Deus viu que isso era bom...”

– Calai-vos! Calai-vos! – bravateavam elas.

Mas eu prosseguia na minha leitura através dessas páginas em que se patenteava, como em um quadro, a visão do novo mundo, desabrochando em sua primitiva e gloriosa beleza, aos raios do Sol, da Lua e das estrelas.

Cada explanação era mais rica em beleza, mais maravilhosa que a precedente, desde as estrelas prosseguindo em seu curso circular até a ervazinha tomando a sua cor dos raios do Sol.

Eu lia com tanta paixão que nem mesmo reparei na atitude das minhas ouvintes. Elas estavam longe de experimentar o mesmo arrebatamento que eu; foi só no fim que tive consciência das suas observações, chacoteando acerca de minha pretendida inépcia para fazer descrições.

Foi sob o domínio de estranhos sentimentos que nessa manhã penetrei no salão da aula. Pouco notei a frieza e o mau humor das minhas companheiras de classe, tão cheia estava a minha cabeça dos quadros evocados por essa misteriosa escrita. Senti-me agitada, excitada e impaciente, até que a meia hora de recreio permitiu-me reler essas páginas. Foi então que meditei sobre a estranheza do fato.

Como se dera isso? Quem tinha escrito e quando fora escrita essa composição?

O pensamento de que alguém quisesse pregar alguma peça veio-me à mente e causou-me temor; mas, não..., a letra era minha; nisso eu não me podia enganar, nem haveria discussão possível. Eu a tinha, pois, escrito; mas, quando?... durante o sono?...

Eu já tinha ouvido falar de coisas semelhantes; mas, não era esse o meu caso. Reconhecia-me inteiramente incapaz de arranjar em ordem meia dúzia de frases... Donde, portanto, podiam provir esses belos períodos, tão poéticos e tão fortes, que quem os lia se sentia arrebatado, nas asas da imaginação, para as cenas do desabrochar da Natureza?

Todo o dia fui atormentada por meus próprios argumentos, favoráveis ou contrários, relativamente ao autor da escrita, e pelo procedimento das minhas companheiras. Elas pretendiam que a minha inaptidão para escrever a descrição não fora mais que um pretexto ou um ardil para deixá-las terminar o seu trabalho e vir depois apresentar o meu, com o fim de eclipsá-las completamente.

Por mais de uma vez resolvi não me utilizar desse trabalho, mas a tentação era forte...

O fato acabou por chegar aos ouvidos da nossa professora e tive ordem de levar ao seu gabinete todos os papéis, o que fiz tremendo de medo. Fazendo-me assentar, ela tomou as folhas e lançou uma rápida vista sobre a primeira página; depois, fixando-me com expressão severa, com o olhar com que ela costumava encarar as culpadas, disse:

– Onde encontrastes isto? Não copiastes de algum livro?

– Não, senhora.

– Explicai-vos então – disse ela.

Contei-lhe timidamente todos os meus insucessos nas numerosas tentativas de composição que eu fizera depois de escolhido o assunto; disse-lhe qual tinha sido o meu desespero; expliquei-lhe como todas as noites eu levava para o meu quarto papel e lápis a fim de tomar nota das idéias que me ocorressem durante a noite, pois me parecia que no leito se podia pensar bem. Acrescentei que eu adormecia regularmente sem ter pensado em nada e, por conseqüência, sem ter de que recordar-me na manhã seguinte.

Contei-lhe também quanto eu tinha orado na noite precedente, pedindo a inspiração, depois de haver inutilmente tentado escrever no leito, por me terem as companheiras obrigado a apagar a vela e a deitar-me. Confessei ter chorado até o momento em que fui vencida pelo sono e que, ao despertar na manhã seguinte, eu tinha encontrado os papéis cobertos de escrita.

– Supondes que alguma das vossas companheiras tenha escrito esta composição? – perguntou-me ela.

Respondi-lhe que não podia supor que outra pessoa, a não ser eu mesma, a tivesse escrito, porque reconhecia a minha letra e, além disso, os lápis estavam de todo gastos, provando que haviam sido utilizados durante a noite.

– Mas não vos lembrais de haver escrito isso?

– Não

– E achais justo que esse trabalho passe como vosso?

Essa era a questão que me perturbava, e eu disse tremendo:

– Não sei o que devo fazer; desejava que alguém me aconselhasse; esta indecisão me infelicita muito.

E as lágrimas, que não estavam longe, começaram a correr-me pela face. Creio que a minha visível angústia abrandou a mestra, porque ela me disse quase com bondade:

– Vou ler a vossa composição, pensarei a respeito, e depois vos direi o que deveis fazer.

Deixei o gabinete com o coração aliviado, feliz por ter descarregado a minha responsabilidade sobre os ombros de uma pessoa mais competente do que eu.

Uma hora depois, fui de novo chamada ao gabinete, onde, para aumentar a minha consternação, achei o reitor conversando com a professora. A meu ver, o fato tinha tomado uma importância terrível e eu sentia-me muito nervosa.

– O reitor deseja conhecer tudo o que se refere a esta escrita. Contai-lhe, pois, tudo – disse a professora.

Repeti a história, depois do que fui submetida a uma longa série de perguntas. Que livros havia eu lido sobre o assunto?

Eu não me recordava de haver lido outra coisa a não ser a Bíblia e os livros da escola.

– Escrevestes composições deste gênero antes de entrardes para a escola?

– Não; disso estou certa.

– Por que vos supondes autora desta composição?

– Porque está escrita com a minha letra e no papel que eu levei para o meu leito.

– Fizestes alguma vez durante o sono qualquer coisa de que vos não lembrásseis pela manhã?

Respondi hesitando:

– Sim.

Eu sabia ter ido em muitas ocasiões ao quarto do meu irmão, mas não acreditei nisso senão quando uma vez ele me despertou. Em outra ocasião cortei-me na mão e fui medicada por uma criada, e só soube tudo isso na manhã seguinte. Igualmente me haviam dito que eu tinha costume de passear dormindo, quando era mais jovem, porém julguei que tal hábito havia desaparecido.

– Nunca, porém, executastes algum trabalho escolar dormindo?

– Não.

– Por que julgais então tê-lo feito agora?

– Não sei. Eu somente tinha pedido a Deus me ajudasse nas idéias, e pedi tanto que julgo ter sido atendida durante o sono. Não sei de que outro modo esse trabalho podia ter sido feito.

Seguiu-se então entre o reitor e a professora uma conversação, no decurso da qual ouvi fazer alusões a um caso semelhante que se dera em país estrangeiro. Um estudante, fatigado de seus estudos, escreveu um tratado sobre assunto científico, trabalho esse que fora considerado de alto valor.

Afinal, os papéis me foram restituídos com a ordem de copiar cuidadosamente a composição e juntá-la aos meus outros trabalhos.

– É um caso muito raro – disse-me o reitor –, mas, visto não haver dúvida de ser vossa a letra e em razão de a Sra. Whittingham dizer-me que nunca teve motivo para duvidar da vossa perfeita sinceridade e honorabilidade, não nos assiste o direito de rejeitar esse trabalho, por estranho que ele seja. Temos ouvido falar de casos semelhantes e, se bem que sobre eles se formulassem diversas teorias, estou inclinado a aceitar a vossa opinião, quando vos referistes ao auxílio de Deus em resposta à vossa prece.

Jamais um coração pulsou com tanta alegria como o meu quando, apertando o precioso manuscrito contra o meu peito, eu corria para o salão de estudo com o fim de copiar a minha composição. Parecia-me haver ganho uma batalha. Haviam reconhecido que eu era sincera e honesta. A voz do reitor tinha sido muito afável quando me falara, e tanto ele como a professora olhavam-me com bondade quando lhes agradeci isso com os olhos cheios de lágrimas de felicidade.

No dia do exame, cumpriu-se o programa habitual; as audições de canto, os solos de piano, as exibições de desenho realizaram-se como nos outros anos. Veio depois a leitura das composições. Cada uma delas teve o seu pequeno louvor, porque todas estavam mais ou menos boas.

O reitor explicou depois que ele considerava a minha composição, que ia ser lida por último, como resposta direta a uma prece. Ele não a tinha classificado entre as peças concorrentes, porque isso não seria justo para as outras alunas; mas não podia deixar de considerá-la como uma obra muito bela, pelo que ia tomar a liberdade de lê-la em voz alta.

Assim foi feito; mas penso que essa leitura não provocou muitos comentários, salvo na mesa. Todas as alunas se achavam fatigadas por causa dos trabalhos dessa manhã e do calor que reinava no salão.

Recebi, da parte do reitor e dos professores, palavras amáveis e uma escrivaninha bem provida como recompensa especial. Eu ignorava o motivo, pois me tinham dito que, por causa das circunstâncias presentes, a minha composição não podia fazer parte do concurso.

Isso, porém, pouco me importava. Eu estava perfeitamente feliz e satisfeita com o louvor que me haviam concedido.
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