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IV
Férias deliciosas – Um navio fantasma


Há um barco fantasma, diz-nos ela,
Dos mortos um batel cortando o mar.
Chamam-no Carmilhan; tem sua equipagem,
Como ele, espectral; e na procela,
Sem um trapo de vela que o auxilie,
Sem alguém que no timão sua marcha guie,
Mostra-se prosseguindo em sua viagem,
Contra ou à feição do vento e sem parar.


Longfellow
Essas férias foram, sem exceção, o período mais feliz da minha vida. Então, tudo era novo, fresco e delicioso. Mesmo o grande navio era para mim uma inesgotável fonte de interesse. O amor que meu pai dedicava aos animais, contrariado em casa, aí tinha seu livre curso. Frangos, patos, leitões e um par de cabras ocupavam seus respectivos compartimentos. As cabras tinham sido trazidas com o fim de me fornecerem um leite que eu detestava; contudo, divertiam-me muito, particularmente no momento de serem ordenhadas, porque pareciam achar grande prazer em evitar as tentativas do rapaz encarregado desse trabalho. As escotilhas do salão estavam cheias de plantas escolhidas, tendo suspensas entre os seus ramos gaiolas com passarinhos cantores. O membro mais notável desse jardim de bichos era um macaco negro, cujas artimanhas maliciosas faziam, ao mesmo tempo, o tormento e as delícias de todos os habitantes do navio. Ele adorava meu pai, porém comigo, sem que eu conheça a causa, nunca foi amável. Meu pai dizia que esse animal era ciumento, e notamos muitas vezes que, quando meu pai me acariciava, o macaco se retirava para a sua cama, onde se assentava com um ar triste e melancólico. Não abandonava esse lugar enquanto eu estivesse junto de meu pai.

Finalmente, havia também um enorme cão terra-nova, chamado Jack, que era um antigo conhecido meu e que, desde que pisei a bordo, pareceu constituir-se meu protetor e companheiro inseparável. Bem depressa conheci toda a gente de bordo, oficiais e marinheiros, e, tendo tantos amigos, companheiros e camaradas de recreio, tendo tantas cenas novas a observar, com essa constante mudança do mar e do céu, as alegres férias tornaram-se para mim, como as chamei depois, um verdadeiro paraíso.

Um dos meus amigos particulares a bordo era o oficial N..., o qual, não obstante já ser primeiro-tenente, era o mais jovem de todos. É certo que, segundo as minhas idéias infantis com relação à idade, quem passasse dos vinte anos já era muito idoso. Esse tenente era quem dirigia as minhas lições cotidianas. Meu pai, para conformar-se com os desejos de minha mãe, tinha religiosamente empreendido essa tarefa, na qual insistia muito.

O ponto fraco de meu pai era, porém, a complacência, a sua maior virtude na minha opinião, e alguns mimos ou um beijo davam motivo à dispensa de uma hora de estudo. À medida que a minha saúde se fortalecia, a minha indisciplina aumentava. Era-me impossível trabalhar quando o Sol brilhava, quando os passarinhos gorjeavam e se ouviam o macaco e o cão fazer cabriolas por cima das nossas cabeças. Quando eu fechava os livros, meu pai meneava a cabeça e dizia: “Vai lá ainda uma vez, porém seja a última.” O tenente N... encarregou-se então da minha educação e, colocada entre os meus dois preceptores, arranjei as coisas de modo a fazer o que me agradava. A única coisa que me recordo de ter aí aprendido foi o modo de desviar a agulha da bússola, o que eu fazia muitas vezes com grande alegria dos meus novos amigos, que admiravam a minha habilidade de tornar louca a agulha imantada, obrigando-a a percorrer todo o quadrante do norte ao sul e do sul ao norte.

Fiquei, é também certo, conhecendo muitas coisas com relação aos lugares que visitamos. A história das cidades da Itália, os costumes, os modos, os usos de seus povos, as descobertas e as escavações de Pompéia foram-me contadas de tal modo que ficaram impressas em meu espírito muito melhor do que se me tivessem feito isso ler.

Era uma educação perfeitamente divertida. Os sonhos e as fantasias abandonaram-me. Meus amigos fantasmas foram esquecidos. O sonambulismo a que eu era sujeita ficou curado, e eu tornei-me semelhante às outras raparigas da minha idade, sadia, feliz, não pensando senão em divertidos e espirituosos gracejos, detestando a clausura da câmara e todo constrangimento, e só pensando em pequenas aventuras, especialmente quando havia nelas algum perigo. Em tudo, eu tinha o apoio do tenente N..., que projetava constantemente novos divertimentos durante as travessias, ou organizada excursões quando estávamos em algum porto.

Meu pai permitia muitas vezes fazer o que me agradava, ainda que, em certas ocasiões, hesitasse diante das minhas propostas, perguntando a si mesmo o que mamãe diria se o soubesse. Entretanto, ele estava satisfeitíssimo com os progressos da minha saúde, com a minha alegria natural, e observava freqüentemente que ninguém me reconheceria quando eu voltasse a casa. Geralmente, acompanhava-me em minhas visitas aos armazéns e fornecia o dinheiro necessário para as minhas numerosas compras. Por isso, considerei-me uma milionária, quando fomos chamados à Inglaterra, e passei a dar balanço nas minhas propriedades acumuladas durante esses três meses de viagem pelas cidades encantadoras da costa italiana.

As minhas propriedades consistiam em luvas, pantufos, água-de-colônia, coral, conchas, ornamentos de mármore, mosaicos de segurar papéis, estojos de agulhas e frascos de perfume feitos de lava. Eu achava um prazer imenso em pensar no modo de dispor desses tesouros em favor das minhas amigas, e os meus pensamentos detiveram-se nisso por mais de um dia. Foi então que se deu um dos incidentes mais estranhos e incompreensíveis, que veio lançar uma nuvem sobre essas férias felizes, fazendo-me voltar à lembrança da minha vida passada e dos desgostos que eu já havia esquecido.

Reinara durante o dia um calor intenso, mas a viração causada pela marcha rápida do navio se nos apresentava extremamente fresca. O Sol sepultava-se em um banho de chamas. O Céu estava maravilhoso em sua diversidade de cores, carmesim, ouro e amarelo. O mar mostrava-se plácido e liso, sem apresentar uma ruga, salvo no sulco do nosso navio, onde a espuma branca e franjada refletia a beleza das cores do alto, criando assim uma das mais deliciosas cenas terrenas que se pode imaginar.

O tenente N... achava-se no tombadilho e, como era de costume, eu estava ao seu lado, discutindo com vivacidade os acontecimentos dos últimos dias, as cenas que havíamos presenciado, os méritos e defeitos das compras que fizéramos na nossa última excursão à terra. Minha língua, como meu pai costumava afirmar, prosseguia dizendo dezenove por doze. Durante a nossa conversação, tínhamos notado muitos navios a distância e, estando discutida e esgotada a questão das nossas compras, fixei a minha atenção nos navios, desejosa de mostrar a minha habilidade em distinguir, umas das outras, as espécies de embarcações, classificando-as como os marinheiros. O tenente N... e eu discordávamos em relação a um navio que se mostrava na linha do horizonte. Seria uma galeota ou um brigue? Cada um de nós sustentava a sua idéia.

– Tomais o meu óculo e vereis que tenho razão – disse ele, passando-me o seu óculo de alcance.

Eu trocava o meu com o dele, quando repentinamente fiquei petrificada vendo um grande navio perto da proa do nosso. Durante a conversação só tínhamos observado o lado donde o nosso navio vinha e, muito interessados na nossa discussão, não prestáramos atenção ao que se passava à nossa frente.

– Olhai, olhai! – bradei assustada.

– O quê? – perguntou o meu companheiro.

– O navio! Por que não parais? Vamos chocar com ele. Parai, parai! Por que o não fazeis? – gaguejei com terror.

O navio estava tão perto que se podiam distinguir os homens no seu tombadilho, e nos aproximávamos dele com uma rapidez assombrosa.

– Que tendes, minha filha? Que navio é esse? Que quereis dizer? Por que havemos de parar?

Segurei-lhe no braço, obrigando-o a voltar-se, porque ele estava olhando para mim, em sua surpresa, em vez de fixar o navio contra o qual avançávamos com rapidez.

– Estais agora vendo? Estais cego? – balbuciei e, em meu terror, sacudi-o, repetindo – O navio, o navio! Parai, parai!

Ele não prestou atenção às minhas palavras, mas, desembaraçando-se da minha pressão frenética, fez-me assentar em uma cadeira que tinha sido colocada para mim em um lugar abrigado. No entanto, a minha única idéia era que nos íamos perder e que eu devia ir para junto de meu pai, pelo que me escapei e fui correndo pelo tombadilho. Ele, porém, alcançou-me e deteve, insistindo para que eu me acalmasse.

– Como posso estar tranqüila, quando vamos afogar-nos? Deixai-me partir! Papai! Papai! – e eu gemia, lutando de novo.

Depois curvei-me escondendo meu rosto sob o seu braço, porque o estranho navio estava então atravessado bem diante da nossa proa, mostrando suas brancas velas enrubescidas pela luz do Sol poente. Um homem achava-se no tombadilho, com os braços cruzados, apoiado à borda e esperando o choque do nosso navio.

Vi isso num relancear de olhos, antes de esconder o meu rosto. Tudo pareceu tornar-se negro e meu coração cessou de pulsar, enquanto eu esperava o inevitável choque. Oh! que agonia nesses momentos! Nenhum tempo apagará da minha memória os pensamentos que me assaltavam o cérebro, enquanto eu esperava o encontro das duas embarcações. Pareceu-me que esse momento teve a duração de uma vida inteira.



A nau fantasma

– Que há? Vejamos. Por que estais tão assustada? – perguntou o tenente N..., passando o outro braço por cima dos meus ombros.

Eu, porém, não podia responder, e só gemia e tremia. O choque demorava-se e arrisquei-me a levantar os olhos. O navio tinha desaparecido! O alívio foi tão grande que um soluço me abalou toda e as lágrimas banharam-me a face.

– Onde está ele? Que caminho seguiu? – balbuciei, quando pude falar.

– Não sei o que quereis dizer – replicou o tenente –. Não havia navio algum perto de nós. Se o houvesse, acreditais que eu o não veria?

Ergui-me e lancei uma vista inquieta ao redor de mim. Atrás de nós, no sulco traçado pelo nosso, vi o navio com as suas velas estendidas. Distingui todas as cordas da sua mastreação e notei que as velas, desta vez colocadas entre nós e o Sol poente, não mais se apresentavam enrubescidas como na primeira posição, mas sim com a cor cinzenta. Eu via os homens a se moverem na coberta e o pavilhão flutuando no alto do mastro. Parecia não estar a mais de 50 pés de nós, mas essa distância aumentava rapidamente. Para mim, era evidente que, sem o saber como, os navios tinham passado um através do outro e que então seguiam diferentes rumos.

– Não podereis agora vê-lo? – perguntei, apontando para a embarcação que se afastava.

– Nada vejo – respondeu laconicamente o tenente.

A secura do tom com que se exprimiu e a reação da emoção intensa que eu havia experimentado eram muito fortes para mim; e desfiz-me em lágrimas, soluçando e sem querer ouvir as palavras tranqüilizadoras do meu amigo. Eu estava horrivelmente fatigada e trêmula. Minhas lágrimas corriam, apesar dos meus esforços para retê-las, e somente se detiveram quando o tenente induziu a que me recolhesse ao meu camarote para repousar, acrescentando:

– Não desperteis vosso pai e nada lhe digais do que vos assustou e do que vistes.

Atendi-o com a cabeça e segui lentamente para o meu camarote, lamentando que ele tivesse recomendado não despertar meu pai e nada lhe contar, pois isso me teria acalmado e consolado.

Parei em frente à sua porta, esperando que algum ruído me provasse que ele estava acordado, mas só pude ouvir a sua profunda respiração. Retirei-me para o meu pequeno camarote e atirei-me ao leito, chorando e tonta de sono.

Na manhã seguinte, ao despertar, meus pensamentos voavam para o navio misterioso e a estranha conduta do tenente N... O meu primeiro impulso foi ir ter com meu pai e contar-lhe tudo, pelo que apressei a minha “toilette”, a fim de encontrá-lo antes do almoço. Enquanto eu penteava os meus cabelos, ia pensando na singular recomendação do tenente N... De repente, assaltou-me uma idéia: sem dúvida meu pai censurá-lo-ia de qualquer modo por se haver aproximado tanto do outro navio. Se bem que nada de mal tivesse sucedido, eu sabia que, quando um navio a vapor chega a tal proximidade de um navio de velas, há uma infração das regras da náutica.

Ouvira dizer que um navio a vapor devia dar sempre passagem aos navios de vela ou, em linguagem marítima, deixar-lhe o campo aberto em pleno mar, e sabia que, permitindo ao nosso navio aproximar-se tanto do outro, o tenente N... havia cometido uma falta contra a lei, o que ia contrariar muito meu pai.

Recordei-me também de me haverem muitas vezes avisado que não era permitido conversar-se com um oficial de quarto quando ele estava dirigindo a navegação, e eu não podia fugir à responsabilidade de o haver feito justamente nesse momento. Eis aí, pois, o que não convinha que meu pai soubesse; e comecei a compreender que alguma coisa séria e desagradável podia suceder ao tenente N..., se meu pai viesse a conhecer o perigo de que tínhamos escapado. Mentalmente, tomei a resolução de não causar tal desgosto ao meu amigo. Com isso, conservara sobre os ombros um peso incômodo, mas ficava satisfeita, carregando-o pela sua salvação. Durante todo esse dia, encontrando-nos, passeando juntos e conversando, não se fez menção do ocorrido na tarde precedente.

No dia imediato, ao jantar, meu pai perguntou-me por que eu havia chorado na outra tarde, imaginando estar vendo um navio. Esse modo de falar fez subir ao meu rosto, e mesmo às pontas dos meus dedos, um rubor de indignação. Eu não sabia o que responder, quando o riso sonoro do tenente N... e o sorriso dos outros convivas me fizeram compreender que o fato já não era um segredo. Isso era muito forte para mim e para minha resolução e, portanto, tive de fazer rapidamente toda a minha narração.

Eu falava depressa e com ardor, tendo voltado toda a cena ao meu espírito.

– Recomeça com mais calma – disse meu pai, quando me detive com um soluço.

Repeti a história.

– Por que me não disseste isto, quando desceste?

– O tenente N... recomendou-me que não vos acordasse. Ontem quis contar-vos tudo e ia fazê-lo, quando me veio o pensamento de que podíeis incomodar-vos com ele por se ter aproximado tanto do navio, e acreditei ter sido esse o motivo pelo qual ele me recomendara que nada vos dissesse. Por isso não o fiz, e lamento ter sido obrigada a falar-vos disso agora, pois que ele zomba de mim – concluí com um ar de ressentimento.

Depois do jantar, meu pai levantou-se e foi conversar no tombadilho com os oficiais. Não ouvi mais falar do fato, senão na tarde daquele dia. Meu pai veio ter comigo e disse-me com uma voz opressa que não me permitia mais pregar essas peças e repetir tais histórias. Ele tinha procedido, segundo disse, a um minucioso inquérito entre os vigias de bordo, quanto ao navio que eu declarava ter visto, e todos sustentavam não nos termos cruzado com navio algum depois de sairmos do porto, e que só viram que eu chorava amargamente. Assim, tudo ficava envolto no mistério, e vi plenamente que não podia esperar que acreditassem na minha palavra, diante de tantas evidências contrárias.

O antigo peso de ansiedade e terror, que tinha saído do meu coração durante essas longas férias, parecia cair de novo sobre mim.

Filosofei sobre a possibilidade de existirem navios fantasmas, como existia um mundo fantasma. Então, as antigas perturbações voltaram e tornaram-me o coração pesado e contristado, ainda que os pequenos incidentes variados da vida a bordo impedissem-me de dar a esse mal tanta importância como anteriormente.

Apesar de tudo, as minhas férias não acabaram bem.

Alguma coisa se tinha elevado entre meu pai e eu: uma nuvem, leve, na realidade, porém que erguia um obstáculo invencível no seio da nossa encantadora intimidade. Ele acreditava-me capaz de mentir, e essa suspeita indignava-me e fazia infeliz.

Eu não podia banir da minha mente a idéia de que o tenente N... desejava esconder a sua falta em relação ao navio, persistindo em declarar que não o tinha visto. Eu indignava-me igualmente de ter ele próprio ido contar a história, depois de me haver proibido de fazê-lo. Tempos depois pedi-lhe que me dissesse o motivo da proibição que me havia feito, e ele respondeu:

– Porque vos acháveis em tal estado de emoção e agitação que julguei fazer-vos mal qualquer repreensão que vosso pai vos desse por terdes tido tão estranhas fantasias. Eis tudo.

No entanto, as minhas férias tinham perdido o seu encanto e comecei a desejar o termo da nossa viagem.
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