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II
As minhas inquietações começam


Numerosas eram as idéias que eu tinha com relação a essas figuras silenciosas. Muitas vezes eu perguntava a mim mesma, com inquietação, o que queria significar tudo aquilo, e por que outras pessoas não viam as minhas “sombras”; depois, porém, de haver sido punida por “inventar” o que eu contava a respeito delas, tornei-me prudente e a esse respeito não mais falei a pessoa alguma. Eu não gostava de ser ridiculizada e muito menos de passar por mentirosa.

Quando se fez a transformação de que já falei, uma criada contou-me muitas histórias de aparições e assustou-me a tal ponto que eu não ousava mais entrar só em nenhum quarto, quando ele estava em escuridão e, mesmo de dia ou à claridade da Lua, eu tremia ante a idéia de algum Espírito sofredor aí tornar-se visível.

Durante muitas noites, depois de haver escutado com ansiedade a narração dessas histórias horríveis, conservei a minha cabeça envolvida nos lençóis, com grande medo de que algum habitante dos túmulos pudesse de súbito aparecer-me.

Entretanto, o que é estranho, eu nunca assemelhara os meus amigos fantasmas aos Espíritos dos mortos. Aqueles nunca me inspiraram temor algum. Eu podia encontrá-los a todo momento, de dia ou à noite, dirigir-lhes um olhar amigável quando passavam ou examiná-los curiosamente quando não se afastavam de mim. Eu não teria mesmo medo dos Espíritos, se soubesse que esses amigos estavam a meu lado. Sentia estar sob a sua proteção e segurança, e nunca tive receio de ficar sozinha no leito, às escuras, quando me achava na presença de um ou muitos desses amigos. Muitas vezes, nos anos que se seguiram, estranhei que essa espécie de vida, tão pouco natural na aparência, não tivesse excitado maior curiosidade e mais comentários ao redor de mim; mas, como já disse, a saúde de minha mãe era melindrosa e ela vivia em cuidados por causa do aparecimento sucessivo e rápido de muitos filhos. Durante esse tempo eu ficava entregue às minhas pequenas ocupações e, não obstante já ser crescida, raramente exigiam de mim outra ocupação que não fosse o estudo das minhas lições diárias, salvo, de quando em vez, a de fazer alguma costura caseira.

Além de tudo, eu não tinha muito gosto pela costura, nem também por qualquer outro trabalho, com exceção do desenho, ocupação essa a que raramente me aplicava, pois minha mãe considerava esse tempo como perdido. Eu tinha sempre em mãos algum trabalho, mas como ele não me interessava, acabavam por mo tomarem, exprobrando-me por meus hábitos preguiçosos. Eu suportava essas censuras com perfeito bom humor, uma vez que me deixassem a faculdade de prosseguir no meu passatempo favorito, isto é, vigiar, sonhando, os meus amigos fantasmas e fantasiar a sua história.

Um dia, enfim, minha mãe, enfastiada com a minha malandrice, ordenou que eu me fosse sentar na sua sala para fazer uma costura, que me pareceu interminável.

Minha mãe desprezava o emprego da máquina de costura e declarava que não queria em sua casa tal abominação. Por isso, a costura da nossa casa era um trabalho sem fim e um obstáculo a qualquer ocupação razoável, salvo para minha mãe, que encontrava nisso ao mesmo tempo um alívio e um prazer.

Assentei-me, pois, ao lado dela, junto à grande mesa de trabalho, e dei começo à minha costura. A sala apresentava um aspecto muito diferente depois das modificações por que passara e eu a mim mesma perguntava quais seriam a esse respeito as opiniões da velha dama fantasma.

Olhando para o lugar onde eu a via habitualmente, fiquei surpreendida e encantada por descobrir essa querida figura familiar em um canto, perto da chaminé. Ela tinha nas mãos alguma coisa e seus dedos se agitavam vivamente; vi então que ela fazia pontos de malha. Havia tanto tempo que eu não via alguém fazer esse trabalho, que o meu interesse foi despertado e observei curiosamente o brilho das suas agulhas.

– Que estás olhando? – perguntou minha mãe, com severidade – não podes prestar atenção ao teu trabalho?

– Mas, mamãe! É a velha dama que está consertando meias.

– Que velha dama – inquiriu minha mãe, e compreendi logo ter dito um disparate, vendo-a cerrar os lábios e franzir a testa, enquanto me repreendia.

– Começas outra vez – continuou ela – com essa história? Não compreendeste ainda que em tua idade essas invenções são detestáveis? Não te tenho dito demasiadamente que não quero isso? Tu, uma menina bastante crescida para induzires teus irmãos a estudarem e para dar-lhes bons exemplos, não fazes senão aborrecer-me muito. Estás sempre disposta a gaiatices, a viver sonhando, em prejuízo de qualquer outra ocupação, olhando para o vácuo e inventando histórias para intimidares os outros. Eu esperava que, crescendo, te libertarias desse mau costume; adoeço completamente de fadiga, pois que já não sei o que fazer para induzir-te a compreender quanto é abominável a tua conduta.

Escutei tudo isso com o coração miseravelmente intumescido, mas, ao mesmo tempo, lancei uma vista furtiva na direção da minha dama fantasma, indagando de mim mesma se ela estava triste por minha causa.

Eu me sentia igualmente muito penalizada e ofendida; e tinha a suspeita aflitiva de haver em mim alguma coisa de anormal. Tinham-me dito muitas vezes que eu “inventava” e devia envergonhar-me de dizer mentiras; eu sentia por isso uma espécie de lástima pela falta de compreensão daqueles que me faziam tais observações. Não gostava que me suspeitassem de falsidade. Desejava ser boa; fazia para isso o que podia e orava até à fadiga, pedindo a Deus que me ajudasse, a fim de tornar-me boa e de não incomodar pessoa alguma, principalmente minha mãe. Muitas vezes, de joelhos diante do leito, eu tinha orado, até cair adormecida, para que fosse libertada de meus sonhos e não mais tivesse a tentação de falar nisso. Mas, ah! meus esforços de nada serviam.

Algumas vezes, quando meu pai estava em casa ou quando aí havia hóspedes, meus amigos fantasmas tornavam-se invisíveis e eu os esquecia por algum tempo, porque tinha outra coisa em que pensar.

Meu pai gostava de ter-me junto de si e eu apreciava a sua companhia. Não tinha companheiras da minha idade, porque me haviam proibido de ligar-me às meninas que freqüentavam a mesma escola. Nunca tive camaradagens nos brinquedos, salvo quando meu pai se achava conosco; então, a minha natureza folgazã se patenteava, eu tornava-me barulhenta e excitada com os brinquedos e as pilhérias que ele provocava. Logo que ele partia, logo que a casa voltava à sua monotonia habitual, todos os meus sonhos ressuscitavam, meus amigos fantasmas tornavam aos seus respectivos lugares e eu amavelmente lhes dava as boas-vindas. Eles eram uma propriedade minha, alguma coisa só a mim pertencente, e secretamente eu me orgulhava de possuir um mundo meu, no qual ninguém mais tinha entrada.

Às vezes, na minha alegria ou na minha admiração, acreditava dever falar a alguém acerca desses seres estranhos que, salvo eu, ninguém parecia ver. Minhas confidentes habituais eram uma velha criada e minha avó, que vinha de tempos a tempos passar algumas semanas conosco. Escutavam-me sempre e faziam seus comentários. Parecia que eram simpáticas às minhas narrações, pelo menos minha avó, porque, embora me repetisse que não convinha pensar nessas coisas estranhas nem falar de meus amigos fantasmas, contava-me histórias maravilhosas e fantásticas que acabavam por me assustar inteiramente, não me voltando a calma senão quando meus amigos fantasmas se achavam de novo ao pé de mim. Nunca me pareceu que aí houvesse alguma coisa de sobrenatural. Eu aceitava a presença deles como uma coisa natural, e era infeliz quando eles estavam ausentes. Bem sabia que ninguém mais os via, porém já não tentava explicar isso; acostumara-me à idéia da existência de pessoas singulares, ignorantes dessas coisas.

Certa tarde, sentada junto de minha mãe, eu escutava silenciosamente as suas repreensões e queixas, com os olhos fixos no meu trabalho, e meus pensamentos trabalhavam em perscrutar a causa de toda a extensão da minha maldade, pois que sentia merecer realmente muitas das exprobrações que me eram dirigidas.

Era preguiçosa... eu o sabia bem. As lições me fatigavam, e não compreendia as palavras que decorava; não podia pela manhã recordar-me das lições estudadas na véspera, à noite; nunca me era possível resolver corretamente os meus problemas de Aritmética, e por essas faltas me prendiam na escola. A Gramática, a Geografia e a História se embaraçavam tanto na minha cabeça que eu apenas podia distinguir uma das outras. Declaravam que a minha escrita era impossível de ler-se; e, quanto à costura – o ponto capital aos olhos de minha mãe –, eu não podia pegar em uma agulha, sem atirar-me logo ao país dos sonhos, donde só voltava para ouvir uma forte repreensão.

Pensava em todas essas iniqüidades com um profundo suspiro, e sentia-me bastante culpada. Por que não era eu como as outras meninas? Certamente podia fazer travessuras, jogar a péla, montar a cavalo, correr, saltar, tomar parte nos jogos organizados por meu pai e meus primos, com os quais eu rivalizava nas burlas maliciosas que eles imaginavam.

Nesses momentos, sentia-me uma criatura totalmente diferente. Entregue, porém, a mim mesma, recaía nos meus sonhos de indolente, pecado imperdoável em uma casa atarefada como a nossa.

Sentia tudo isso... e resolvi tornar-me outra. Estudaria seriamente, e não seria mais a última da minha classe por causa de temas mal escritos e de trabalhos mal feitos; coseria, ocupar-me-ia com as crianças e mostraria que prestava para alguma coisa. Ante essas sucessivas resoluções de corrigir-me, senti-me totalmente boa, antecipando a maravilha de obediência e atividade em que pretendia transformar-me. Perguntava a mim mesma se a minha velha dama fantasma ouvia e compreendia tudo isso, se ela sabia quanto me tinham repreendido.

Eu indagava se ela tinha sido algum dia menina de catorze anos e se, encarregando-a de fazer longas costuras, haviam-na repreendido por ter desempenhado mal essa tarefa. Talvez que o seu trabalho só tivesse sido sempre o de fazer pontos de malha.

Lancei um golpe de vista para o seu lado. Lá estava ela ponteando malha; eu via seus dedos moverem-se com rapidez e suas agulhas brilharem durante esse ligeiro movimento de dedos. Espantava-me da sua habilidade, porque seus olhos estavam fixos em mim e não sobre o seu trabalho. Minha mãe não sabia fazer pontos de malha, segundo a ouvi dizer. Julguei que me seria grato aprender isso, que me parecia tão engenhoso e divertido. Eu ia pedir à minha avó que me ensinasse, pois sabia que ela conhecia esse trabalho, embora não o fizesse com tanta perfeição e celeridade como a querida dama fantasma. Perguntava a mim mesma se esta não poderia ensinar-me; ela, porém, nunca parecia começar o trabalho e era esse começo que eu precisava saber. Talvez que se minha avó me mostrasse as malhas sobre as agulhas, eu soubesse sair do embaraço, observando os dedos da dama fantasma e fazendo o mesmo que ela. Ah! se ela trabalhasse mais lentamente!... Os dedos da minha avó não podiam ser tão ágeis, mesmo que trabalhassem depressa. Eu acreditava não poder acompanhar a contagem da formação das pequenas malhas, e apenas me era dado segui-la. Assim, eu pensava, poderia consertar todas as meias da família e minha mãe não mais me chamaria preguiçosa.

Uma voz severa veio então perturbar meus cálculos, dizendo:

– Por que não coses? É inútil falar-te; és capaz de esgotar a paciência de um santo. Não atendes ao que eu digo e fazes sempre o possível para me aborreceres e penalizares. Que estás vendo? Que há naquele canto?

O tom queixoso de minha mãe fez-me recordar as minhas faltas.

– É a velha dama – disse eu –, que está ponteando meias, e eu...

– Silêncio, filha ruim! Nunca me fales dessas coisas. Basta que eu ouça o que os outros contam das tuas invenções. Trabalha.

No meu susto, eu tinha deixado cair a costura, quando minha mãe me despertou do sonho.

– Se levantares os olhos antes de terminado o teu trabalho e se tornares a olhar naquela direção, dou-te uma tapona, a fim de ver se assim te avivo a memória.

Ela estava então realmente zangada; e pois, retomando trêmula e silenciosa o meu trabalho, recomecei a costura.

Ó mãe Eva! pergunto ainda a mim mesma: Se tivésseis sabido que legado deixáveis às vossas filhas, esse conhecimento não haveria detido a vossa mão no momento de colherdes o fruto proibido? Que indomável é o desejo que herdamos de fazer precisamente o que nos é vedado! Eu não tinha necessidade de erguer os olhos dos meus trabalho; realmente desejava obedecer; mas, a tentação de ver se o trabalho da velha progredia e se ela compreendia o que se passava entre minha mãe e eu era muito forte... Olhei, pois, na direção proibida e, logo em seguida, uma bofetada forte me colocou a par da minha desobediência.

Eu sabia que o castigo era merecido, mas isso em nada modificava as coisas, e eu chorava e soluçava amargamente, sem poder conter-me, quando vi entrar o doutor, que minha mãe esperava nesse dia.

Escapei-me e fui sentar-me na escada, onde, cobrindo o rosto com as mãos, chorei de dor e de vergonha.

No fim de algum tempo abriram a porta e chamaram-me. Enxugando as lágrimas, entrei na sala. Minha mãe, sempre assentada em sua cadeira baixa, parecia perturbada e zangada, e o doutor por aí passeava. Quando entrei, ele sentou-se: segurando a minha mão, acariciou-a amistosamente e disse-me com bondade:

– Penaliza-me ver-vos chorar, mas sabeis que a vossa mamãe está sofrendo, e deveis procurar contentá-la em vez de penalizá-la. Contai-me, pois, toda essa história, isto é, as coisas que vedes e os outros não vêem, as velhas que ponteiam meias, etc. Que significa tudo isso? Falai.

Ele olhava-me com bondade e simpatia, acariciando-me as mãos, enxugando as lágrimas que corriam pelas minhas faces e incitando-me a falar.

Isso animou-me; contei-lhe o que chamavam meus sonhos e minhas fantasias, coisas que para mim eram realidades. Falei-lhe de meus amigos fantasmas, nossos hóspedes diários; da velha dama que trabalhava com tanta habilidade e me olhava com tanta doçura; do cavalheiro bem trajado, de cabelos longos e anelados, chapéu de plumas, com esporas e uma espada ao lado; falei-lhe do homem que usava um colarinho largo que se alteava ao redor do pescoço, apresentando a aparência de ter a cabeça colocada num prato; das damas de vestidos de seda, cabelos empoados, com suas rendas, babados e maneiras curiosas. Contei-lhe tudo... o meu desgosto de não ser escutada... e quanto me era terrível ser suspeitada de falsidade.

– Mas isso é a verdade – acrescentei eu –; cada palavra é uma realidade. Eles aí estão, eu os vejo, e não minto.

– Sim – disse o doutor –; creio em vós e não julgo que estejais mentindo.

Oh! como meu coração saltou, ao ouvir essas palavras, e voou para esse homem, que eu julgava sincero!

– Sim, creio que vedes coisas que os outros não vêem; conheci pessoas que se vos assemelhavam, que viam homens, mulheres e animais, que realmente não existiam. Mas essas pessoas eram loucas. Persistiam em ver sombras movendo-se ao seu redor, velhos ou mulheres espiando-as pelos cantos. Tinham começado por ver uma coisa, depois outra, e, enfim, tornaram-se perigosas, sendo necessário recolhê-las a asilos de alienados para serem curadas.

Pareceu-me que essas palavras me congelavam o sangue nas veias. Eu não podia deixar de ficar imersa em um silêncio cheio de horror. Que queria dizer tudo isso? Seria esse o segredo do mundo maravilhoso em que eu havia passado horas tão felizes? Meus amigos fantasmas não estariam realmente ali? Teriam razão aqueles que me diziam que os meus fantasmas não existiam e que eu me enganava?

Eu os via; nisso não me enganava; se, porém, realmente eles não existiam, e se eu via uma coisa sem existência real, é claro que isso não era normal.

Anteriormente eu nunca havia pensado nisso; mas agora, que horrível pensamento! Eu ia enlouquecer!

Dia e noite sofri esse tormento. Ser louca! Que significava ser louca? Eu pensava em todas as coisas horríveis que me tinham contado, nos crimes cometidos pelos maníacos, nos horrores dos asilos de alienados, nas câmaras acolchoadas, nos ferros, nas camisolas de força... e tremia de medo, e pedia a Deus, quase freneticamente, que me preservasse da loucura.
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