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Introdução


À Srª d’Espérance

Prezada amiga:

Tivestes a bondade de enviar-me as provas do vosso livro e de pedir-me sobre ele a minha opinião.

É com prazer que atendo ao vosso desejo. Era bastante difícil a tarefa que empreendestes, mas, felizmente, conseguistes o que aspiráveis. O perigo a evitar era dizer demasiado ou insuficientemente. Dizendo demasiado, vos teríeis embaraçado nos detalhes, pois ser-vos-iam precisos dez ou mais volumes para dar-se uma idéia completa da vossa mediunidade; ademais, podia isso assemelhar-se a uma apologia. Dizendo de menos, poderíeis ser obscura. Escolhestes o termo médio, e o essencial é que ele dê uma impressão completa e excelente.

Talvez que para outros ainda sejais obscura; mas falo com experiência própria, porque, tendo acompanhado a vossa carreira mediúnica por mais de vinte anos em todos os seus detalhes, posso compreender-vos melhor que muitos outros.

Dotada desde o vosso nascimento desse dom fatal da sensitividade, tornastes-vos, contra a vossa vontade, médium. Dominada unicamente por um sentimento de respeito à verdade, não recusastes o vosso auxílio aos que desejavam avançar nessa investigação, pela qual vos interessáveis cada vez mais. Bem depressa obtivestes fenômenos mui notáveis e vos extasiastes com o pensamento de obterdes também demonstrações palpáveis da gloriosa verdade da imortalidade. Que consolo para a pobre e triste Humanidade! Que novo campo de trabalho se abre à Ciência! Um Espírito missionário vos inspirava e vos prontificastes para qualquer sacrifício pela vitória desta verdade: as vossas comunicações com os Espíritos.

Há bastante tempo, quando comecei a ocupar-me com o Espiritismo, eu pensava muitas vezes que, se fosse um médium poderoso, daria com prazer toda a minha vida, todas as minhas forças e todos os meus recursos para provar a todos e a cada um o fato da existência do mundo dos Espíritos, com o qual é possível entrarmos em comunicação. Felizmente, não sendo eu médium, vós o sois e vos achais animada dos mesmos princípios que me teriam guiado, se eu possuísse a vossa faculdade.

Na vossa vida vejo os resultados que eu teria conseguido. A vossa obra demonstra que, com as melhores intenções e a mais inteira sinceridade, os resultados obtidos não parecem estar em proporção com os sacrifícios que fizestes e as esperanças que nutristes. Posso, portanto, firmar-me na idéia de que a minha sorte não teria sido melhor que a vossa. Por que? Pela ignorância dos fenômenos, das suas leis e condições; porque as verdades novas não podem ser implantadas à força no espírito; porque os grandes campeões da causa são destinados a agir isoladamente, sem acharem auxílio e conselhos em outros que, para dizer-se a verdade, são tão ignorantes como eles próprios. A verdade só pode ser encontrada depois de tentativas perseverantes.

Começastes por uma decepção no momento em que, impelida pelo espírito missionário, tentastes dar ao primeiro vindo, a um estranho qualquer, uma demonstração das manifestações espiríticas. Foi então que fizestes uma descoberta que pareceu destruir todos os vossos planos para regenerar o mundo: notastes que essas manifestações, obtidas com tanta facilidade em vosso círculo privado, não se produziam em presença de estranhos, dependentes como estavam do plano espiritual, segundo o qual tinham sido decretados.

O vosso mais amargo despertar, porém, foi quando fostes inevitavelmente impelida para o caminho escorregadio da materialização, onde tudo era ainda mistério. Entregastes-vos a essas experiências com um devotamento digno de vós.

Assentados no gabinete, porém sem vos achardes em estado de transe, conservando-vos em perfeito estado consciente, que podíeis recear? Era bom que Iolanda, que já tínheis visto e tocado tantas vezes, aparecesse fora do gabinete. que podia haver de mais convincente e tranqüilizador para vós? Ah! Eis que um incidente inesperado vos precipitou do céu à terra!

Tínheis a convicção de permanecer em vosso lugar e de posse de todos os vossos sentidos, e contudo o vosso corpo estava à mercê de uma influência estranha.

Fostes vítima dos mistérios da sugestão; mistérios que eram então quase completamente ignorados, e, no caso presente, complicados pela questão de saber-se de quem emanava essa sugestão.

As aparências eram contra vós. Só podíeis saber que a vossa vontade não tomava parte nisso, e que esse mistério vos acabrunhava. Era natural que, durante muitos anos, nem mesmo tivésseis ouvido pronunciar a palavra Espiritismo.

Dez anos se passaram. Eu vos julgava totalmente perdida para a causa. Mas o tempo é um grande médico, e alguns bons amigos vos induziram a experimentardes de novo. Uma série de novas experiências, tendo por fim a fotografia das formas materializadas, foi organizada. Esplêndidos resultados e outro despertar amargo! De novo fostes acusada, quando sabíeis não ter feito mais do que satisfazer ao desejo de outros.

Era uma repetição do mesmo mistério, no qual por ignorância não podíeis penetrar.

Foi então que cheguei a Gotemburgo para recomeçar as experiências fotográficas. Nunca vos tendo sujeitado a alguma das exigências usadas com os médiuns profissionais, permitistes, entretanto, que eu vos tratasse como se fôsseis capaz de enganar, submetendo-vos a todas as condições que julguei necessárias. Nunca fizestes a menor objeção. Posso certificar que éreis, tanto quanto eu, interessada em descobrir a verdade.

Depois de longa série de experiências e de muitas contrariedades, chegamos a duas conclusões. Primeira, que, apesar da plena consciência que tínheis de permanecer passiva no gabinete, o vosso corpo ou um simulacro do vosso corpo podia ser empregado por um agente misterioso fora do mesmo gabinete.

O vosso próprio amigo, o Espírito Walter, anunciou por vossa mão que podia suceder ainda de tornar-se o vosso corpo invisível no interior do gabinete. Isso foi para vós uma revelação desesperadora.

Outro ponto importante estava alcançado: as dúvidas e as suspeitas dos assistentes podiam assim ser escusadas, visto parecer que eles tinham mais razões do que a princípio julgáveis.

Tudo isso era muito desanimador e, portanto, tomastes a seguinte resolução: “Se tenho qualquer parte na formação dos Espíritos, quero sabê-lo.” E vos decidistes a não mais vos assentar no interior do gabinete.

Com essas novas condições, obtivestes muitos resultados excelentes e foi então que se deu um caso notável, narrado no capítulo XXIV: “Serei Ana, ou Ana será eu?” Eu temia que tivésseis deixado de mencionar essa experiência, mas fico satisfeito vendo-a reproduzida com todos os seus detalhes. Aí tivestes um fato palpável do desdobramento do organismo humano.2 Esse fenômeno se acha no princípio de toda materialização e tem sido a fonte de muitos enganos.

Mas, que nova perplexidade para vós!

Recordo-me ainda do tempo em que, abatida sob a carga de pesadas dúvidas, me escrevíeis: “Toda a minha vida não foi mais que uma ilusão? Terei errado o caminho? Fui enganada ou enganei os outros? Como repararei o mal por mim causado?”

Das profundezas desse mundo que estava tão perto de vós desde a vossa mais tenra infância, e para o qual trabalháveis com tanta seriedade e desinteresse, veio afinal a luz que havíeis pedido com tanta paixão; recebestes uma resposta às dúvidas que vos angustiavam. Folgo em ver-vos de novo na luta.

Nas vossas recentes experiências de fotografia, conseguistes desenvolver uma nova fase de vossa mediunidade, mediunidade essa que sempre supus a tivésseis, porém que, no tempo da minha visita a Gotemburgo, não foi além do caso narrado no capítulo XXIII. Os recentes resultados obtidos completam as vossas passadas experiências sobre a materialização e estão de acordo com a bela visão que vos explicou o mistério. Não podemos ver os Espíritos, mas desejamos vê-los. Não podemos a nós mesmos representar os Espíritos de outro modo, a não ser sob forma humana, e, por conseqüência, eles trabalham nisso tanto quanto podem. Tais eram as formas e as cabeças humanas que vistes e desenhastes na obscuridade, tais foram mais tarde as formas humanas invisíveis que fotografastes à claridade do dia ou à luz do magnésio. Estou disposto a crer que se estivésseis na obscuridade teríeis igualmente visto essas mesmas formas.

Tais foram, finalmente, as formas materializadas visíveis, que foram fotografadas em Gotemburgo, e das quais reproduzistes uma fotografia sob o nome de Leila.

Tudo isso não era mais que um ensaio para dar alguma coisa tangível aos nossos sentidos; tentativas feitas para provar unicamente que por detrás dessas formas trabalham agentes espirituais e que essas formas não devem ser tomadas por aparições de Espíritos, como nos foi dito por eles desde o começo.3

Se continuardes nesse propósito e vos tornardes senhora das condições, não se pode dizer onde vos detereis, nem que grandes resultados serão obtidos.

Tais foram, prezada amiga, as minhas impressões lendo o vosso livro; é um livro único. São as confissões de um médium que se retrata, se desdiz ou se defende, mas é a história franca e triste das decepções de uma alma sinceramente amante e ávida de saber, à mercê de potências desconhecidas, porém cheias de promessas.

Deixando esse mundo de sombras, eu vos digo: Continuai, continuai! Cumpri o vosso dever, suceda o que suceder; e seja essa a vossa regra.

Não verei as vossas novas experiências, mas a vossa missão, tenho certeza disso, longe se acha do seu termo. Um dia encontrareis o vosso Crookes; ele compreenderá a natureza delicada da vossa mediunidade e saberá cultivar e desenvolver vossos numerosos dons psíquicos para o bem da Ciência e da Humanidade.

O vosso sincero,

A. Aksakof

Repiofka, Rússia, 5/17 de setembro de 1897.
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