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XIV
Os sábios tornam-se espíritas


“Realmente, não há melhor conhecimento do que o adquirido pelo trabalho; tudo mais não é senão um conhecimento hipotético, um assunto para ser discutido nas escolas, uma coisa flutuante nas nuvens, em um turbilhão infindável, para que busquemos fixá-la.”

Carlyle
Quando se fez ou se imagina ter feito uma grande descoberta, creio que o nosso primeiro impulso é espalhar a notícia ao redor de nós, não duvidando que ela seja apaixonadamente acolhida e tão altamente apreciada pelo resto do mundo, como o foi por nós.

Como já vimos, havia três ou mais anos que muitos dos fenômenos espíritas eram-me familiares; mesmo desde a minha infância eu me tinha habituado a alguns. Mas a fé nessas manifestações não faz necessariamente “um espírita”, ainda que dêem tal designação aos crentes nos seus fenômenos. Até então, não gostava de ser chamada “espírita”, termo que me parecia impróprio e sem significação apropriada. Crer em certos fatos que se mostram claros à inteligência mais comum não constitui motivo para merecer-se essa classificação, assim como crer-se na existência das estrelas e dos planetas não dá o direito de se ter o título de astrônomo. De outra sorte, os melhores e mais sinceros espíritas que eu tenho conhecido não precisavam, para firmarem sua fé, dessas manifestações que são para outros tão necessárias, facilitando-lhes as primeiras tentativas no descobrimento das leis que prendem o mundo espiritual ao material.

Conheci pessoas muito experimentadas em relação aos fenômenos espíritas, pessoas que possuíam uma fé inabalável na sua origem espiritual e que, entretanto, eram, se ouso dizê-lo, crentes materialistas nos fenômenos espíritas e não no próprio Espiritismo, do qual nada conheciam. A respeito dessas pessoas, recordo-me de uma entrevista que tive com duas damas que desejavam conhecer-me. Elas estavam ambas em país estranho e, ouvindo dizer que eu era inglesa e espírita, visitaram-me. Depois do jantar, caiu a conversação para o Espiritismo. Aos meus outros hóspedes explicaram que pouco ou quase nada sabiam dessa doutrina, que haviam sido espíritas durante três ou quatro anos, que tinham tido sessões com os melhores médiuns, sem atenderem a despesas e sem desprezarem a menor condição para uma investigação minuciosa. Diziam-se verdadeiras adivinhas na arte de descobrir médiuns e acrescentaram nunca terem deixado de conferenciar com aqueles que haviam encontrado.

Nesse ponto de vista, senti-me infinitamente reconhecida por elas ignorarem que eu era um médium.

– Mas – disse um dos meus hóspedes – embora seja muito interessante e estranho, não posso descobrir a necessidade desse estudo. Como pode tornar alguém feliz o conhecimento de que seus caros amigos não têm no outro mundo melhor ocupação que a de fazer dançar as mesas, falar pela boca do médium, um mau inglês, ou aparecer como caricaturas nas sessões de materialização? O espiritualismo do Cristo parece-me muito mais belo, e satisfaz a todas as necessidades dos que nele crêem.

– Oh! sim – respondeu a outra –, mas rejeitamos tudo isso; não acreditamos na existência do Cristo; desejamos alguma coisa mais real e tangível do que essas velhas lendas. Certamente o Cristo era muito bom e, para os tempos antigos, seus ensinos foram suficientes; mas a nossa época precisa de coisa melhor.

O materialismo dessas senhoras espíritas parecia-me extremamente desanimador. Para elas, “Espiritismo” queria dizer “fenômeno”, e mais nada. Sua profissão de fé era uma escusa muito cômoda para dispensá-las dos deveres religiosos, que sentiam pesados, e dava-lhes a faculdade de freqüentarem as sessões para as quais somente os espíritas eram convocados. Mas, fora disso, esse termo não tinha para elas significação alguma. Entre essas “esclarecidas adeptas” do Espiritismo e eu só havia pouca ou nenhuma simpatia. Seguimos caminhos diferentes, e só raramente poderemos encontrar-nos. Elas talvez ainda estejam à procura de bons médiuns, coisa que não é muito fácil de encontrar no país em que habitam.

Eu não tinha idéia alguma de poderem existir essas diferenças de opiniões entre os adeptos de uma mesma causa, e essa descoberta tornou-me perplexa. Desejava proclamar ao mundo inteiro a verdade dos fatos. Nunca me tinha vindo o pensamento de que o mundo a recebesse com menor contentamento do que eu. Julgava que me bastaria falar dessa descoberta para comunicar aos ouvintes a minha satisfação. No entanto, as minhas declarações foram geralmente recebidas com incredulidade. Escutavam-me cortesmente, nas recusavam-se a crer-me, na falta de uma demonstração evidente. Tentei dá-la e fiz uma nova descoberta que pareceu vir destruir os meus belos planos de regeneração do mundo. As manifestações que se tinham sucedido durante os meus anos de experiências, numerosas e mais maravilhosas umas que as outras, e isso sem esforço algum de minha parte, pareceram-me quase impossíveis de ser obtidas espontaneamente, como eu as vira até antão. O poder de escrever sobre assuntos científicos, que por tantos meses nos tinha ocupado o tempo e a atenção, pareceu-me completamente aniquilado. Às perguntas que me faziam vinham respostas tão disparatadas, que eu por momentos sentia-me realmente irritada. A faculdade da clarividência, que raras vezes me faltara em nosso pequeno círculo, acabou por tornar-se fraca e incerta, e os movimentos da mesa não tinham mais significação alguma, tão incoerentes eles eram.

Eu estava muito mal preparada, devido à facilidade com que havia obtido precedentemente essas manifestações, para suportar com paciência todos esses insucessos. Não foi, pois, sem certo despeito que contemplei o fraco resultado da minha missão, e comecei a compreender a minha ignorância das leis que regem os fenômenos. As pessoas com as quais tinha antes feito experiências, seja por acaso, seja por uma boa sorte, eram particularmente aptas para esse gênero de trabalho. Agora, que me achava privada do apoio e da cooperação dos meus amigos, o resultado das manifestações dependia de mim somente ou do auxílio incerto de experimentadores com opiniões diversas e possuindo sobre a matéria menos conhecimentos do que eu.

Reconheci que tínhamos então sido bem sucedidos e que conseguiria idêntico resultado se se dessem as condições de outrora. Por isso, o meu trabalho era penoso e muito comentado. Eu desejava converter o mundo, e o mundo não queria ser convertido; ia seguindo o seu caminho, sem que se pudesse impor-lhe uma convicção que ele não pedia.

Ao mesmo tempo, um ardor missionário apossava-se de mim, sem me deixar repouso. Imaginava, combinava planos para fazer conhecer e propagar a realidade do mundo espiritual e os meios de nos comunicarmos com os seus habitantes; tudo, porém, foi inútil, seja porque o mundo nada desejava saber, seja porque eu não tinha o poder de produzir fenômenos que o satisfizessem. Nunca me veio a idéia de que alguém pudesse duvidar do que eu contava acerca desses variados fenômenos; por isso, desagradava-me muito que essa dúvida se traísse em significativo franzir de sobrancelhas ou num movimento de ombros, quando a delicadeza dos ouvintes poupava-me os seus comentários.

Expus as dificuldades aos meus amigos espirituais, pedindo-lhes conselhos, e eles disseram que eu tivesse paciência, não buscasse instruir os outros antes de eu própria o ser, nem tentasse reformar o mundo ou reerguer a Igreja, mas, simplesmente, que executasse do melhor modo o trabalho que estivesse ao meu alcance.

Buscando seguir esses conselhos, tornava-se-me, muitas vezes, difícil saber como devia proceder quando me encontrava entre pessoas que tinham o maior interesse pela causa espírita. Parecia que não devia recusar-lhes auxílio, mesmo no caso de duvidar da sua profissão de fé. Era realmente desanimadora a situação, e, se eu não houvesse encontrado uma ou duas brilhantes exceções, é possível que a minha coragem sucumbisse.

Quando a minha saúde ficou em grande parte restabelecida, graças à minha estada no sul da França, fui passar alguns meses em companhia do Sr. e da Sra. F..., então residentes na Suécia, e acompanhei diversos amigos a Leipzig, onde, com o amável concurso do Sr. James Burns, de Londres, entrei em relação com o célebre Professor Zöllner. Graças ao interesse deste e de sua mãe, a minha estada na Alemanha foi uma das exceções animadoras de que acima falei.

Na véspera do meu regresso à Inglaterra, um acontecimento acidental obrigou-me a ir com os meus companheiros de viagem a Breslau, em vez de seguir o meu destino via Hamburgo. Essa mudança em meus projetos não me era agradável, pois vinha anular muitos deles; mas, por dever de humanidade, não os podia abandonar nas circunstâncias que se tinham dado.

Quando chegou ao conhecimento do Professor Zöllner essa mudança de itinerário, ele fez a seguinte observação:

– Tenho em Breslau um amigo, o meu melhor amigo de infância, e até hoje as nossas opiniões não variaram sobre qualquer outro assunto. Infelizmente, ele nunca pôde tolerar as minhas idéias sobre o Espiritismo, e essa nuvem, levantada entre nós, destruiu em grande parte a nossa longa amizade. Sofro muito com isso, mas não posso renunciar à minha fé espírita para satisfazer mesmo ao meu melhor amigo. O que espero é que um dia ele seja mais indulgente com as minhas idéias. Se pudésseis fazer dele um espírita, prestar-me-íeis o maior dos serviços; nada há no mundo que eu deseje tanto.

– Bem – respondi em tom de gracejo –, por dedicação a vós, farei dele um espírita. Como se chama esse amigo?

– Dr. Friese – respondeu Zöllner, quando o trem começava a mover-se.

A viagem era longa e a noite estava fria. Em conseqüência da repentina mudança de plano, a minha bagagem tinha tomado outra direção, e não levei comigo senão uma parte insignificante das minhas roupas; assim, cheguei a Breslau adoentada e fui forçada a guardar o leito por alguns dias. Uma manhã, sem ser anunciado, um cavalheiro entrou em meus aposentos. Somente pude ouvir a palavra “doutor”, pronunciada pela criada que lhe abriu a porta; portanto, concluí naturalmente que ele era algum médico prevenido pelos meus companheiros de viagem, e passei a descrever-lhe todos os meus sofrimentos.

– Mas, cara senhora, estais enganada; chamo-me Friese.

– Não sois médico?

– Uso do título de doutor, mas não sou médico. Vinha visitar-vos em atenção à recomendação do meu velho amigo, o Professor Zöllner, de Leipzig, de quem acabo de receber uma carta.

Realmente, isso foi para mim uma surpresa desagradável. Eu não sabia o que havia de fazer ou dizer; minha face estava ardente e só desejava ocultar-me sob os lençóis para chorar. Ele viu o meu embaraço, porque começou a censurar o serviço do hotel, que julgava mal feito e muito incompleto. Eu disse-lhe que pouco sabia a tal respeito, porém que, realmente, ninguém se havia importado comigo desde a minha chegada. Meus amigos diariamente perguntavam-me como eu me achava, se necessitava de alguma coisa, e mais nada. Como não parecia desejar mais que ficar tranqüila, submetiam-se perfeitamente a esse desejo.

Imagino que a linguagem do Dr. Friese foi muito enérgica, não podendo eu repetir os termos que empregou, porque não conheço o alemão; o efeito, porém, foi maravilhoso.

Nas horas que se seguiram, não mais houve para comigo a menor falta de atenção. Depois, o doutor voltou ao meu quarto em companhia de um médico e da dona do hotel. Discutiram a possibilidade do meu transporte para a residência do Dr. Friese; mas, a dona do hotel protestou, declarando que daí em diante não mais haveria falta de cuidado para comigo, da parte do pessoal do hotel. Supusera que a outra dama, que chegara comigo, tinha feito tudo o que era necessário; de outro modo, eu não teria ficado esquecida.

Na minha opinião faziam bastante ruído por muito pouca coisa, e pedi-lhes que se não amofinassem tanto por minha causa. Enfim, terminou a questão. Decidi-me a permanecer em Breslau, até que estivesse nas condições de regressar à Inglaterra. Meus companheiros estavam desejosos de prosseguir em sua viagem e partiram na manhã seguinte.

Tendo o Dr. Friese e a sua irmã insistido para que eu fosse habitar na casa deles até o meu completo restabelecimento, deliberei atendê-los. O inverno foi longo e chuvoso, e não pude facilmente libertar-me do resfriado que contraíra, pelo que a minha estada em Breslau prolongou-se muito.

O Dr. Friese era um dos homens mais metódicos que eu havia conhecido até então; por isso, desde que decidi voltar à Inglaterra somente depois do inverno, ele organizou um plano para as minhas ocupações e estudos diários. Devo dizer também que o Dr. Friese era pintor consumado e músico entusiasta, mas acima de tudo era um professor. Não creio que, em circunstância alguma, ele pudesse reprimir a sua inclinação para dar instrução aos jovens que lhe eram confiados. Declarou logo que era necessário corrigir os defeitos da minha educação, e ele próprio ocupou-se disso por meio de regulamentos severos, aos quais eu devia obedecer humildemente. E não só estabelecia as regras, mas também queria que elas fossem seguidas pontualmente; não havia meio de escapar, e ninguém pensava nisso. Sua vida era regulada como um relógio, assim como as de todas as pessoas de sua casa. Eis as regras que me impôs:

  • Às 7:30 – levantar-me, tomar banho e fazer a minha toilette, ajudada por uma criada;

  • Às 8:00 – almoçar;

  • De 9:00 às 11:00 – desenhar ou pintar;

  • De 11:00 às 12:30 – passear a pé ou em trenó; geralmente ele acompanhava-me neste último exercício e empurrava o meu trenó;

  • De 12:30 às 13:00 – descanso;

  • De 13:00 às 14:00 – jantar;

  • De 14:00 às 16:00 – desenhar ou pintar;

  • De 16:00 às 17:00 – passeio, se o tempo fosse bom; do contrário, fazer a minha correspondência;

  • De 17:00 às 18:30 – tomar chá ou fazer curtas leituras em alemão;

  • De 18:30 às 22:00 – ir ao concerto ou espetáculo, se houvesse, ou conversar acerca do Espiritismo;

  • Às 22:30 – tomar leite com sanduíche;

  • Às 23:00 – recolher-me ao leito, sem escusa alguma para continuar de pé.

Os dias passavam-se desse modo e, além de nada conseguir, revoltava-me contra essa monotonia. Enfim, uma semana de chuva e neve incessantes antepôs-se aos nossos passeios cotidianos, e um intervalo de tempo, em que não havia óperas nem concertos, libertou-me do que começava a ser um purgatório para mim. O doutor parecia decidido a cultivar o meu gosto musical, apesar de ter eu objetado que não se podia cultivar o que não existia. Nenhuma escusa foi aceita e tive de ir ao concerto ou à ópera. À ópera eu ia com satisfação, mas os concertos musicais só os acompanhava com disfarçada má-vontade.

Nas noites de abstinência musical, passávamos o tempo na discussão do Espiritismo e a tentar experiências, que eram admiravelmente felizes quando estávamos a sós ou em companhia de um ou dois amigos.

O Dr. Friese interessava-se muito pela escrita automática e, apesar da sua paixão pela música, acedeu enfim ao meu pedido de passar algumas noites a escrever, em vez de ir aos concertos musicais.
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