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XII
A ciência e os retratos dos Espíritos


Dos céus a Providência em nossos peitos,
Generosa, implantou-nos a vontade
De estranhas coisas novas procurando
Irmos sempre, sem tréguas perlustrando
As sagradas moradas dos perfeitos
No seio inesgotável da verdade.


A. Kenside
Uma noite, não me lembro por que, reunimo-nos na obscuridade. A sessão tinha começado em pleno crepúsculo e, quando chegou a noite, ninguém propôs que se acendesse a luz.

Vindo-me a idéia de olhar para a parte mais sombria da sala, pareceu-me aí ver uma curiosa nebulosidade luminosa, perfeitamente distinta na obscuridade. Observei-a durante um ou dois minutos sem nada dizer, perguntando a mim mesma donde poderia aquilo originar-se. Supus que fosse algum reflexo do lampião da rua, apesar de nunca o ter notado anteriormente.

Enquanto eu a observava, a nuvem luminosa pareceu condensar-se, tornar-se compacta e, enfim, revestir a forma de uma menina, iluminada como se o fosse pela luz do dia, luz que não vinha de fora, mas do seu próprio interior, a obscuridade da sala servindo de fundo e pondo em relevo cada contorno e cada um dos traços da figura. Chamei a atenção dos outros para essa estranha aparição e fiquei muito surpreendida, quando eles declararam nada ver, nem a menina nem a nebulosidade.

– Como é estranho! – disse eu – vejo tudo tão claramente que lhe poderia fazer o retrato, se tivesse papel e lápis.

– Aqui os tendes – disse a minha vizinha mais próxima.

E, recebendo os objetos, comecei apressadamente a esboçar a cabeça, os traços e as espáduas da pequena visitante, que parecia compreender muito bem o que eu fazia.

– Creio que é Nínia – observei.

E logo a criaturinha fez um vivo sinal afirmativo com a cabeça.

Comecei a rir-me e a exprimir o prazer que experimentava com o meu trabalho, o qual contemplei com algum orgulho.

– Não achais parecido? – perguntei ao Sr. F..., meu vizinho.

– É difícil julgar na obscuridade – respondeu ele –. Acendamos a luz e então veremos.

Foi então que me lembrei de que nos achávamos em completa escuridão, e pensei que tinha dormido e sonhado com a criança luminosa e com a semelhança do meu desenho. Eu segurava nervosamente o papel, temendo que a luz das velas viesse a cair numa folha em branco. Mas não! O desenho ali estava; eu não sonhara. O rosto de Nínia sorria-nos no papel, como me tinha sorrido do seu recanto sombrio. Eu lhe havia apanhado os traços com muita habilidade e estava orgulhosa com o meu trabalho.

– Admito perfeitamente que tenhais visto a menina – observou alguém –, mas não posso compreender como pudestes esboçar o seu retrato na obscuridade.

Eu mesma não o podia compreender. O que sabia era que, para mim, não tinha havido falta de luz. Via a criança, o papel e o lápis, sem pensar em outra coisa, e nesse curto momento não estava segura de coisa alguma. Tinha necessidade de olhar para o desenho, a fim de convencer-me de que tudo aquilo não era um sonho.

Essa nova fase da minha mediunidade foi uma fonte de alegrias para mim, e com isso cresceu o meu interesse pelas sessões noturnas. Pedíamos aos nossos amigos espirituais que tomassem posição para serem retratados, e nos assentávamos munidos de papel e lápis. Quando chegou o verão, tornou-se necessário sombrear as janelas, e observamos que as formas luminosas eram tanto mais distintas quanto mais completa a obscuridade da sala. Essa foi, pelo menos, a minha opinião, porque os outros continuavam na sua obstinada cegueira, nunca se apercebendo da presença dos nossos hóspedes.


Reprodução da fotografia de um desenho
a pastel, com firmas na parte inferior.

Durante alguns meses os nossos trabalhos limitaram-se à confecção desses retratos. Muitas vezes consegui esboçar muitas formas em uma só noite. Se algum estranho assistia às nossas sessões, quase sempre também apareciam Espíritos estranhos, cujos retratos eu conseguia às vezes fazer. Em geral, esses esboços eram imediatamente reconhecidos e reclamados pelos amigos desses Espíritos. Conservei alguns que não foram reconhecidos. Stafford, Walter, John Harrison e Nínia foram os primeiros a se deixarem retratar e os seus retratos são o meu tesouro mais precioso.

A notícia dessa fase particular da minha mediunidade espalhou-se logo e achei-me muito contrariada pelas visitas e correspondências. De todos os lados solicitavam-me retratos de amigos perdidos, julgando que bastaria eu cerrar os olhos e empreender a obra para poder fornecer desenhos. De diferentes países chegaram cartas implorando o meu auxílio, suplicando a remessa do retrato de algum filho desaparecido. Tentei satisfazer a todos, mas, salvo raras exceções, não fui bem sucedida.

Entre outras, recebi uma carta do Egito, enviada por um espírita húngaro, que costumava, nas sessões em sua casa, obter comunicações de um filho amado, já falecido.

“Meu filho disse-me – escreveu ele – que se eu vos enviasse um pequeno objeto que lhe houvesse pertencido, seria capaz de tornar-se visível a vós, dando-vos a faculdade de retratá-lo.”

A carta era acompanhada de um lencinho de seda, que conservei na mão durante a sessão seguinte. Esperei com paciência o fato prometido, mas nada vi por muito tempo. Depois desenhou-se fracamente no fundo escuro o contorno da figura de um soldado. Não era o que eu esperava, mas na falta de outra coisa tracei apressadamente o contorno dessa aparição. A figura, porém, desaparecera antes que eu pudesse fazer mais, e o desenho ficou por acabar.

Durante muitas semanas segurei nas sessões o mesmo lenço, mas nada obtive. Um dia alguém me perguntou:

– Sabeis que idade tinha o filho desse homem?

Eu ignorava-o.

– Não será possível que ele seja esse jovem soldado que começastes a retratar?

Eu não tinha pensado nisso, acreditando sempre que se tratava de um menino. Escrevi, pois, ao pai, pedindo-lhe certos detalhes, mas não obtive resposta e o retrato incompleto do jovem soldado ainda se conserva no meu álbum, até que seja reclamado.


Um dos retratos desenhados na obscuridade, em
cuja consecução foram gastos aproximadamente
30 segundos. Esses retratos não foram procurados.

Enquanto me ocupava em retratar por esse meio os habitantes do outro mundo, pensei na imperfeição dos meus trabalhos e deliberei passar uma ou duas horas por dia a desenhar, a fim de fazer progredir o meu pequeno talento. Trabalhei nisso seriamente por muitos meses; mas, coisa estranha, à medida que eu aperfeiçoava o meu trabalho, diminuía a minha faculdade de distinguir as formas luminosas. Finalmente, tornou-se para mim uma raridade a obtenção de qualquer retrato, e esse trabalho pareceu afetar os meus nervos, produzindo-me violenta dor de cabeça, que continuava ainda por um ou dois dias depois da sessão. Contrariada, fui, portanto, obrigada a abandonar os meus ensaios. Em algumas ocasiões esse dom foi passageiramente restituído, podendo eu durante semanas retratar os Espíritos; mas depois sentia-me exausta por dias inteiros. Por isso, ainda que estivesse sempre nas sessões munida do material necessário, não tinha a idéia de servir-me dele.

Nessa época o nosso círculo sofreu algumas modificações. Muitos dos seus membros deixaram a cidade, outros retiraram-se da Inglaterra e novos assistentes tinham vindo reunir-se ao redor da mesa. Restava apenas pequeno número dos antigos assistentes que, desde o começo das nossas experiências, nunca abandonaram os seus lugares.

Nossos estudos entraram em nova fase com a chegada de um novo visitante, impelido pelo desejo de obter um retrato ou, pelo menos, de estar presente à execução de um dos meus desenhos. Era o Sr. Barkas, um homem conhecido, uma verdadeira celebridade. Ele possuía conhecimentos variados, era amigo das artes, observador inteligente e consciencioso, tendo grande e filantrópico interesse no progresso da classe operária. Havia fundado em Newcastle uma galeria artística, um salão de conferências e uma biblioteca, e não se cansava de tentar tudo quanto fosse possível para atrair-lhes concorrência e animar a instrução. Além disso, fazia freqüentes dissertações públicas sobre assuntos da atualidade. Essas dissertações, por árido que fosse o assunto, interessavam sempre, devido ao modo pelo qual eram feitas. Logo que ele ocupava a tribuna, o grande salão de conferências enchia-se de um público atencioso e inteligente.

O Sr. Barkas, membro da Sociedade Geológica, era espírita. A ninguém buscava impor sua fé na existência de um mundo espiritual; mas, apesar da sua reserva, suas crenças eram muito conhecidas por todos e, à vista da sua qualidade de homem considerado, muitas vezes o ridicularizavam de um modo pouco agradável, o que ele recebia com inalterável bom humor.

Passou a fazer parte do nosso pequeno grupo, na esperança de ver alguma coisa de novo; mas, durante muitas sessões, nada veio satisfazer-lhe. Afinal, de improviso, pude ver e fazer o retrato de uma dama idosa que se dizia sua parenta. Ele, entretanto, não a reconheceu senão por seu modo de trajar, dizendo que podia ser o de sua avó, de quem conservava mui fraca lembrança.

Numa dessas sessões, atento ao que pudesse vir, o Senhor Barkas disse que pretendia fazer doze conferências em um grande salão da vizinhança. Pela conversação que se seguiu, compreendi que essas conferências eram destinadas a vulgarizar conhecimentos científicos no seio do povo. Na primeira, ia tratar da eletricidade, seus usos e aplicações, ou coisa semelhante. O Sr. Barkas expôs os pontos que tentaria demonstrar aos seus ouvintes por meio de experiências práticas. Falou das diferentes teorias que têm sido emitidas para explicar esses diversos fenômenos.

Durante essa conversação, que segui atenta, mas silenciosamente, conservando na mão um lápis, por cima de uma folha de papel de desenho, eu estava pronta para retratar o Espírito que se apresentasse. Senti minha mão tornar-se fria e entorpecida; depois o lápis escreveu, e lemos estas palavras: “Poderei saber quais as teorias particulares que pretendeis sustentar e popularizar?”

– Essa pergunta é dirigida a mim, segundo suponho – disse o Sr. Barkas, olhando-me risonho –. Interessai-vos pelo assunto?

– Não... sim... não sei – respondi –. Não sou eu quem vos interroga, é Stafford.

– Bem – disse o Sr. Barkas –, se isso tem interesse para o Sr. Stafford, conversarei com ele de boa-vontade.

Seguiu-se uma longa explicação das diferentes teorias, seus méritos e defeitos, terminada por uma exposição do Sr. Barkas acerca das suas opiniões pessoais e dos motivos que o induziam a adotá-las. Eu havia tentado seguir esses desenvolvimentos com atenção, porque o expositor parecia dirigir-se a mim, mas não tardei a perder-lhes o fio, completamente atrapalhada pela repetição de termos técnicos cuja significação eu compreendia tanto como o hebraico.

Logo que ele terminou, a minha mão escreveu com clareza e resolução o seguinte: “Estais iludido; enquanto não avançardes mais em vossas experiências, elas parecerão sustentar a vossa teoria; mas, adiantai-vos, fazei as experiências que, se assim permitirdes, desejo propor-vos, e reconhecereis que as vossas teorias nem mesmo merecem discussão.”

– Pareceis estar muito forte nesta matéria – disse o Sr. Barkas –; talvez pudésseis instruir-me em vez de dar-me simples indicações.

– Pouco sei – retorquiu Stafford –, mas tenho lido muito e experimentado bastante; por isso o assunto interessa-me sempre. É possível que eu tenha notado certas coisas que escaparam à vossa atenção e vice-versa, e julgar-me-ei muito feliz se puder auxiliar-vos de qualquer modo.

Com certeza essa inversão de papéis era uma coisa inesperada para o nosso amigo. Suponho que todos nos sentimos um tanto escandalizados diante dessa fria superioridade de Stafford, porque nenhum de nós teve o pensamento de duvidar dos conhecimentos científicos do Sr. Barbas ou da exatidão das teorias por ele sustentadas. Ao mesmo tempo sentia-me, ainda que sem manifestá-lo, fortemente arrastada em favor de Stafford e desejava saber como ele se sairia com honra dessa situação.

Imagino que o mesmo sentimento preocupava os outros membros do nosso grupo, porque quando, depois de três horas de discussão, o Sr. Barkas disse a Stafford: “Pois bem, meu amigo, vou seguir o vosso conselho, escolherei outro assunto para a minha conferência, farei as experiências que me sugerirdes e verei o que daí resultará”.

Uma grande satisfação patenteou-se nos semblantes e nas palavras dos assistentes.

As nossas sessões tomaram um caráter totalmente diverso depois de ficar assim reconhecida a competência de Stafford em matéria científica. O Sr. Barkas, surpreso por ver a sua ciência em falta, falou do assunto aos seus amigos que, embora não fossem levados por esse fato a se interessarem pelas manifestações espíritas, não estavam menos curiosos de ver uma “jovem, de educação vulgar”, discorrer com competência sobre as ciências naturais e assinalar os sofismas contidos nas proposições apresentadas por sábios. Esses senhores pediram permissão para assistir às nossas sessões semanais e, geralmente, apresentavam-se munidos de uma longa lista sobre assuntos científicos, evidentemente arrolados para embaraçarem-me. Stafford manifestou-se tranqüilo e escreveu:

– Sentirei satisfação se puder prestar-vos algum serviço; mas, estabeleçamos ordem em nosso trabalho e estudemos cada assunto por sua vez.

– Podereis dizer-nos quais os que vos são mais familiares?

– Não sou especialista em matéria alguma, mas, como vós, li um pouco a respeito de tudo. Se indicardes os assuntos que desejais aprofundar, eu vos direi se estou ou não no caso de discuti-los.

– Pois bem! propomos que disserteis sobre a luz.

– Muito bem, e depois?

– O som, a acústica, a música, a harmonia.

– E depois?

– Se discutirmos tudo isso receamos abusar da vossa paciência; se, porém, assim não for, escolheremos em seguida outros assuntos.

Começou então um debate que se prolongou por muitos meses. Como Stafford havia sugerido, as questões só eram aceitas quando se referiam ao assunto da presente sessão; acontecendo, porém, que a discussão de uma mesma matéria se prolongasse às vezes por muitas noites, o questionador, no intervalo das sessões, correspondia-se com os outros sábios do país, no intuito de verificar as explicações de Stafford e de colher, ao mesmo tempo, materiais para apresentar novas objeções.

Quanto a mim, não tomara grande interesse nessas discussões, a não ser pelo ardente desejo que tinha de ver Stafford mostrar-se capaz de lutar com tantos homens ilustrados e sequiosos, como me parecia, de provar a sua própria superioridade intelectual. Eu não compreendia os termos técnicos ali constantemente empregados e às vezes perguntava a mim mesma se eles eram mais bem compreendidos pelos interpelantes.

Geralmente, durante essas sessões prolongadas, divertia-me em estudar o jogo da fisionomia das diversas pessoas sentadas ao redor da mesa e em meditar sobre o número considerável de conhecimentos que elas aí adquiriam.

Um desses senhores tinha o hábito de cerrar os olhos, como se estivesse totalmente absorto em algum importante problema científico. Uma noite, quando minha mão escrevia certa resposta assaz longa, ouvimos do lado desse profundo pensador um roncar característico que me fez dar uma risada, e foi grande a dificuldade que tive para conter-me e continuar a escrever.

Muitas vezes Stafford assim respondia: “Não sei, mas vou receber informações e já vos trago a resposta.” Havia então suspensão da escrita durante alguns minutos; depois, o lápis começava a mover-se e respondia à questão.

Às vezes Walter ou Nínia enchiam esses intervalos com as suas observações pilhéricas ou com reflexões sobre a aridez da matéria em discussão, admirando-se de acharmos gosto nisso. Às vezes também me era possível esboçar o retrato de alguns dos nossos visitantes espirituais, mas isso era raro. Em geral, eu saía das sessões excessivamente enfastiada e totalmente exausta. Minha saúde não era boa, cuidados e desgostos domésticos feriam-me duramente e, se não fosse o interesse imenso que tomei por essas sessões, eu teria cedido à tentação de abandoná-las por algum tempo. Não tive, porém, a coragem de fazer baquear as numerosas esperanças dos meus amigos, e resisti tanto quanto minhas forças permitiram.

Os quatro assuntos precedentemente indicados foram por muito tempo o objeto de discussões. A propósito do som, Stafford descreveu em seus menores detalhes um aparelho capaz de transmitir as ondas sonoras a distâncias ilimitadas; esse aparelho, dizia ele, bem depressa será conhecido no mundo inteiro. Tal declaração foi cortesmente acolhida, como era de nosso costume, e um dos assistentes, falando depois do aparelho, disse: “Quem mais viver mais coisas verá.” Não tivemos necessidade de viver muitos anos para vermos espalhado pelo mundo inteiro o telefone descrito por Stafford.

Outra invenção, cujo aparecimento nos anunciou, foi a de um aparelho ao qual denominou: “Designograph”, e cuja utilidade consistia em reproduzir numa parte do Globo, por meio de combinações elétricas, os caracteres de escrita que uma pessoa fizesse num papel colocado na outra parte. Por esse meio, desenhos e planos poderiam ser fielmente transmitidos de um a outro extremo do mundo. Decorreram vinte e cinco anos depois dessa predição, mas o aparelho anunciado só apareceu nestes dez últimos anos, e ainda não é conhecido e aplicado de um modo geral.4

– Meu caro Stafford – disse uma noite o Sr. Barkas –, já esgotamos todo o nosso cabedal de conhecimentos, questionando-vos. Não poderíeis indicar-nos algum outro assunto interessante para objeto da discussão?

– É a vós que isso compete – respondeu Stafford.

– Não conheço nenhum assunto que possa ser de interesse geral – disse o Sr. Barkas, com um sorriso que me fez pensar no meu vizinho dorminhoco –, mas, conto entre os meus amigos um doutor em Medicina, que sempre me está pedindo para travar relações convosco. Talvez ele tenha alguma questão de interesse a propor-vos.

– Serei feliz estando na companhia de qualquer dos vossos amigos.

Por esse modo, o médico veio e escolheu a Anatomia para objeto da conversação. A discussão prolongou-se por uma ou duas noites e pareceu despertar grande interesse, rivalizando o médico e Stafford no emprego de expressões e termos latinos. Depois dos ossos foram discutidos os nervos, e aí Stafford pareceu levar vantagem. Uma vez ele deteve-se bruscamente no meio de uma frase, dizendo:

– Esperai um instante; vou consultar um dos meus amigos sobre esse ponto; ele conhece isso melhor do que eu.

Durante meia hora, Walter entreteve-nos imitando de um modo chistoso o “Governador” e fazendo uma dissertação científica acerca das propriedades do ar, a que ele dava o nome de “oxi-hidro-nitro-amoníaco”. Questionado sobre a significação dessa palavra, disse-nos:

– Quando trato de assuntos científicos, prefiro servir-me de nomes científicos – querendo, evidentemente, meter à bulha o médico cuja conversação era quase ininteligível para o comum dos espíritos, tal o uso excessivo que ele fazia dos termos técnicos.

Depois de uma ausência de meia hora, Stafford voltou cheio de informações e recomeçou a discussão sobre as funções de certos nervos.

– Willis disse-me... – começava ele, quando o médico, que ia lendo as palavras à medida que eram formadas no papel, interrompeu-o bruscamente:

– Willis? Que Willis? Falais do grande Dr. Willis, autoridade reconhecida em tudo o que se refere ao sistema nervoso e ao seu funcionamento?

– Sim; creio que é considerado como uma autoridade, e foi por isso que o consultei; ele disse-me que certos nervos do cérebro receberam denominações tiradas do seu nome.

– Admirável! – bradou o médico; e pareceu-me que, a partir desse momento, seu respeito para com Stafford cresceu extraordinariamente.

Quanto às questões musicais, momentaneamente abandonadas por não conhecermos alguém suficientemente habilitado para sustentar uma discussão, julgamo-nos felizes quando excitamos o interesse do Sr. William Rae, organista distinto e muito apreciado. Eu havia feito parte de seus coros como discípula e tinha por ele muito respeito e afeição. Como já o disse, nunca estudei música, votando-lhe um interesse muito superficial, e por isso tal discussão não me prometia grande gozo.

Stafford declarou que não era um músico de execução, porém que tinha lido alguns livros sobre a teoria da música. Que fosse ou não músico executante, mostrou logo um conhecimento da matéria mais profundo que o do Sr. Rae, o qual declarou que escreveria a alguns dos seus amigos para ter as suas opiniões e conselhos antes de voltar à discussão. Stafford concordou, e na semana seguinte o Sr. Rae trouxe-nos uma longa carta de Sir Jules Benedict, com explicações todas favoráveis a Stafford, em relação às questões discutidas.

Os assuntos de música, de harmonia, dos diferentes modos de construção de órgãos e outros instrumentos de música pareciam intermináveis.

Apesar do meu desejo muito natural de conservar-me cortês e condescendente com os bons amigos que seguiam essa discussão com tão grande interesse, começava a sentir-me terrivelmente fatigada e minha saúde, que nunca fora boa, ia arruinar-se de todo sob a ação dos cuidados diversos que pesavam sobre os meus ombros.

Segundo toda a probabilidade, Stafford viu que eu tinha necessidade de repouso e, no fim do ano consagrado aos problemas científicos, declarou que era preciso interrompê-los por algum tempo, podendo nós recomeçá-los mais tarde. Um dos assuntos de estudo propostos – a Química – não tinha ainda sido discutido por falta de interlocutor assaz preparado na matéria.

O Sr. Barkas fez notar que, aprovando a idéia de Stafford para dar-me algum repouso, lamentava muito não se haver tratado anteriormente desse assunto, tanto mais que um químico então muito conhecido, o Sr. T. Bell, acabava de pedir seriamente uma conferência com Stafford. Este, porém, foi inexorável; o Sr. Bell teve de esperar, visto que a saúde da médium era coisa mais importante que a discussão de qualquer questão. Por isso nada mais se tinha a dizer.

O Sr. Barkas terminou a série de suas conferências tratando das recentes experiências psicológicas. Nessa última conferência, sem declinar o nome dos assistentes de nossas sessões, ele tornou público ao que ele chamava: “Respostas extraordinárias dadas a questões científicas por uma jovem de educação vulgar.”

Não fiquei lisonjeada com essa apreciação da minha educação, mas, vencendo o sentimento de despeito que me feria, não pude deixar de confessar que, no domínio dos assuntos que tinham sido tratados, a minha educação era realmente muito limitada. Não tinha, pois, o direito de ofender-me com a observação.

Todos os manuscritos dessas sessões, se bem que me pertencessem, estiveram em poder do Sr. Barkas para publicá-los resumidamente.

Depois da sua morte esses manuscritos foram-me restituídos, mas, ao mesmo tempo, pediram-me para não os publicar e não fazer aparecer o nome dele nessas questões. Por isso, não fiz alusão senão ao que ele mesmo publicou das nossas sessões ou, pelo menos, àquilo que já se achava no domínio público.
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