Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu






descargar 289.6 Kb.
títuloAqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu
página6/7
fecha de publicación19.09.2015
tamaño289.6 Kb.
tipoDocumentos
l.exam-10.com > Documentos > Documentos
1   2   3   4   5   6   7

É todo o meu amor de todos estes annos!

Nós vamos para lá; somos provincianos,

Desde o calor de maio aos frios de novembro!

II

Que de fructa! E que fresca e temporã,

Nas duas boas quintas bem muradas,

Em que o sol, nos talhões e nas latadas,

Bate de chapa, logo de manhã!

O laranjal de folhas negrejantes,

(Porque os terrenos são resvaladiços)

Desce em socalcos todos os macissos,

Como uma escadaria de gigantes.

Das courellas, que criam cereaes,

De que os donos--ainda!--pagam foros.

Dividem-n'o fechados pitosporos,

Abrigos de raizes verticaes.

Ao meio, a casaria branca assenta

Á beira da calçada, que divide

Os escuros pomares de pevide,

Da vinha, n'uma encosta soalhenta!

Entretanto, nao ha maior prazer

Do que, na placidez das duas horas,

Ouvir e ver, entre o chiar das noras,

No largo tanque as bicas a correr!

Muito ao fundo, entre olmeiros seculares,

Secca o rio! Em trez mezes d'estiagem,

O seu leito é um atalho de passagem,

Pedregosissimo, entre dois logares.

Como lhe luzem seixos e burgaus

Roliçõs! Marinham nas ladeiras

Os renques africanos das piteiras,

Que como áloes espigam altos paus!

Montanhas inda mais longiquamente,

Com restevas, e combros como boças,

Lembram cabeças estupendas, grossas,

De cabello grisalho, muito rente.

E, a contrastar, nos valles, em geral,

Como em vidraça d'uma enorme estufa,

Tudo se attrae, se impõe, alarga e entufa,

D'uma vitalidade equatorial!

Que de frugalidades nós criamos!

Que torrão espontaneo que nós somos!

Pela outomnal maturação dos pomos,

Com a carga, no chão pousam os ramos.

E assim postas, nos barros e areiaes,

As maceiras vergadas fortemente,

Parecem, d'uma fauna surprehendente,

Os polypos enormes, diluviaes.

Comtudo, nós não temos na fazenda

Nem uma planta só de mero ornato!

Cada pé mostra-se util, é sensato,

Por mais finos aromas que rescenda!

Finalmente, na fertil depressão,

Nada se vê que a nossa mão não regre:

A florescencias d'um matiz alegre

Mostra um sinal--a fructificação!

* * * * *

Ora, ha dez annos, n'este chão de lava

E argila e areia e alluviões dispersas,

Entre especies botanicas diversas,

Forte, a nossa familia radiava!

Unicamente, a minha doce irmã,

Como uma tenue e immaculada rosa,

Dava a nota galante e melindrosa

Na trabalheira rustica, aldeã.

E foi n'um anno prodigo, excellente,

Cuja amargura nada sei que adoce,

Que nós perdemos essa flor precoce,

Que cresceu e morreu rapidamente!

Ai d'aquelles que nascem n'este cahos,

E, sendo fracos, sejam generosos!

As doenças assaltam os bondosos

E--custa a crer--deixam viver os maus!

* * * * *

Fecho os olhos cançados, e descrevo

Das telas da memoria retocadas,

Biscates, hortas, batataes, latadas,

No paiz montanhoso, com relevo!

Ah! Que aspectos benignos e ruraes

N'esta localidade tudo tinha,

Ao ires, com o banco de palhinha,

Para a sombra que faz nos parreiraes!

Ah! Quando a calma, á sesta, nem consente

Que uma folha se mova ou se desmanche,

Tu, refeita e feliz com o teu «lunch»,

Nos ajudavas, voluntariamente!...

Era admiravel--n'este grau do Sul!--

Entre a rama avistar o teu rosto alvo,

Ver-te escolhendo a uva diagalvo,

Que eu embarcava para Liverpool.

A exportação de frutas era um jogo:

Dependiam da sorte do mercado

O boal, que é de perolas formado,

E o ferral, que é ardente e côr de fogo!

Em agosto, ao calor canicular,

Os passaros e enxames tudo infestam;

Tu cortavas os bagos que não prestam

Com a tua thesoura de bordar.

Douradas, pequeninas, as abelhas,

E negros, volumosos, os besoiros,

Circumdavam, com impetos de toiros,

As tuas candidissimas orelhas.

Se uma vespa lançava o seu ferrão

Na tua cutis--petala de leite!--

Nós collocavamos dez réis e azeite

Sobre a galante, a rosea inflammação!

E se um de nós, já farto, arrenegado,

Com o chapeo caçava a bicharia,

Cada zangão voando, á luz do dia,

Lembrava o teu dedal arremessado.

* * * * *

Que d'encantos! Na força do calor

Desabrochavas no padrão da bata,

E, surgindo da gola e da gravata,

Teu pescoço era o caule d'uma flor!

Mas que cegueira a minha! Do teu porte

A fina curva, a indefinida linha,

Com bondades d'herbivora mansinha,

Eram prenuncios de fraqueza e morte!

Á procura da libra e do «schilling»,

Eu andava abstracto e sem que visse

Que o teu alvor romantico de «miss»

Te obrigava a morrer antes de mim!

E antes tu, ser lindissimo, nas faces

Tivesses «panno» como as camponezas;

E sem brancuras, sem delicadezas,

Vigorosa e plebeia, inda durasses!

Uns modos de carnivora feroz

Podias ter em vez de inoffensivos;

Tinhas caninos, tinhas incisivos,

E podias ser rude como nós!

Pois n'este sítio, que era de sequeiro,

Todo o genero ardente resistia,

E, á larguissima luz do Meio-dia,

Tomava um tom opalico e trigueiro!

* * * * *

Sim! Europa do Norte, o que suppões

Dos vergeis que abastecem teus banquetes,

Quando ás dockas, com fructas, os paquetes

Chegam antes das tuas estações?!

Oh! As ricas «primeurs» da nossa terra

E as tuas frutas acidas, tardias,

No azedo amoniacal das queijarias

Dos fleugmaticos «farmers» d'Inglaterra!

Ó cidades fabris, industriaes,

De nevoeiros, poeiradas de hulha,

Que pensaes do paiz que vos atulha

Com a fructa que sae dos seus quintaes?

Todos os annos, que frescor se exhala!

Abundancias felizes que eu recordo!

Carradas brutas que iam para bórdo!

Vapores por aqui fazendo escala!

Uma alta parreira muscatel

Por doce não servia para embarque:

Palacios que rodeiam Hyde-Park,

Não conheceis esse divino mel!

Pois a Corôa, o Banco, o Almirantado,

Não as têm nas florestas em que ha corças,

Nem em vós que dobraes as vossas forças,

Pradarias d'um verde illimitado!

Anglos-Saxonios, tendes que invejar!

Ricos suicidas, comparae comvosco!

Aqui tudo espontaneo, alegre, tosco,

Facilimo, evidente, salutar!

Opponde ás regiões que dão os vinhos

Vossos montes d'escorias inda quentes!

E as febris officinas estridentes

Ás nossas tecelagens e moinhos!

E ó condados mineiros! Extensões

Carboniferas! Fundas galerias!

Fabricas a vapor! Cutelarias!

E mechanicas, tristes fiações!

Bem sei que preparaes correctamente

O aço e a seda, as laminas e o estofo;

Tudo o que há de mais dúctil, de mais fofo,

Tudo o que ha de mais rijo e resistente!

Mas isso tudo é falso, é machinal,

Sem vida, como um circulo ou um quadrado,

Com essa perfeição do fabricado,

Sem o rythmo do vivo e do real!

E cá o santo sol, sobre isso tudo,

Faz conceber as verdes ribanceiras;

Lança as rosaceas bellas e fructeiras

Nas searas de trigo palhagudo!

Uma aldeia d'aqui é mais feliz,

Londres sombria, em que scintilla a corte!...

Mesmo que tu, que vives a compor-te,

Grande seio arquejante de Paris!...

Ah! Que de gloria, que de colorido,

quando, por meu mandado e meu conselho,

Cá se empapelam «as maçãs d'espelho»

Que Herbert Spencer talvez tenha comido!

Para alguns são prosaicos, são banaes

Estes versos de fibra succolenta;

Como se a polpa que nos dessedenta

Nem ao menos valesse uns madrigaes!

Pois o que a bocca trava com surprezas

Senão as frutas tónicas e puras!

Ah! N'um jantar de carnes e gorduras

A graça vegetal das sobremesas!...

Jack, marujo inglez, tu tens razão

Quando, ancorando em portos como os nossos,

As laranjas com cascas e caróços

Comes com bestial soffreguidão!...

* * * * *

A impressão d'outros tempos, sempre viva,

Dá estremeções no meu passado morto,

E inda viajo, muita vez, absorto,

Pelas varzeas da minha retentiva.

Então recordo a paz familiar,

Todo um painel pacifico d'enganos!

E a distancia fatal d'uns poucos annos

É uma lente convexa, d'augmentar.

Todos os typos mortos resuscito!

Perpetuam-se assim alguns minutos!

E eu exagéro os casos diminutos

Dentro d'um véo de lagrimas bemdito.

Pinto quadros por lettras, por signaes,

Tão luminosos como os do Levante,

Nas horas em que a calma é mais queimante,

Na quadra em que o verão aperta mais.

Como destacam, vivas, certas cores,

Na vida externa cheia d'alegrias!

Horas, vozes, locaes, physionomias,

As ferramentas, os trabalhadores!

Aspiro um cheiro a cosedura, e a lar

E a rama do pinheiro! Eu adivinho

O resinoso, o tão agreste pinho

Serrado nos pinhaes da beira mar.

Vinha cortada, aos feixes, a madeira,

Cheia de nós, d'imperfeições, de rachas;

Depois armavam-se, n'um prompto as caixas

Sob uma calma espessa e calaceira!

Feias e fortes! Punham-lhes papel,

A forral-as. E em grossa serradura

Acamava-se a uva prematura

Que não deve servir para tonel!

Cingiam-n'as com arcos de castanho

Nas ribeiras cortados, nos riachos;

E eram d'assucar e calor os cachos,

Criados pelo esterco e pelo amanho!

Ó pobre estrume, como tu compões

Estes pampanos doces como afagos!

«Dedos de dama»: transparentes bagos!

«Tetas de cabra»: lacteas carnações!

E não eram caixitas bem dispostas

Como as passas de Malaga e Alicante;

Com sua fórma estavel, ignorante,

Estas pesavam, brutalmente, ás costas!

Nos vinhatorios via fulgurar,

Com tanta cal que torna as vistas cegas,

Os parallelogramos das adegas,

Que têm lá dentro as dornas e o lagar!

Que rudeza! Ao ar livre dos estios.

Que grande azafama! Apressadamente

Como soava um martellar frequente,

Véspera da saida dos navios!

Ah! Ninguem entender que ao meu olhar

Tudo tem certo espirito secreto!

Com folhas de saudades um objecto

Deita raizes duras de arrancar!

As navalhas de volta, por exemplo,

Cujo bico de passaro se arqueia,

Forjadas no casebre d'uma aldeia,

São antigas amigas que eu contemplo!

Ellas, em seu labor, em seu lidar,

Com sua ponta como a da podoas,

Serviam próbas, uteis, dignas, boas,

Nunca tintas de sangue e de matar.

E as enxós de martello, que d'um lado

Cortavam mais do que as enxadas cavam,

Por outro lado, rápidas, pregavam,

D'uma pancada, o prego fasquiado!

O meu animo verga na abstracção,

Com a espinha dorsal dobrada ao meio;

Mas se de materiaes descubro um veio

Ganho a musculatura d'um Sansão!

E assim--e mais no povo a vida é corna--

Amo os officios como o de ferreiro,

Com seu folle arquejante, seu brazeiro,

Seu malho retumbante na bigorna!

E sinto, se me ponho a recordar

Tanto utensilio, tantas perspectivas,

As tradições antigas, primitivas,

E a formidavel alma popular!

Oh! Que brava alegria eu tenho quando

Sou tal qual como os mais! E, sem talento,

Faço um trabalho technico, violento,

Cantando, praguejando, batalhando!

* * * * *

Os fruteiros, tostados pelos soes,

Tinham passado, muita vez, a raia,

E, espertos, entre os mais da sua laia,

--Pobres camponios--eram uns heroes.

E por isso, com phrases imprevistas,

E colorido e estylo e valentia,

As «haciendas» que ha na «Andalucia»

Pintavam como novos paysagistas.

De como, ás calmas, n'essas excursões,

Tinham aguas salobras por refrescos;

E amarellos, enormes, gigantescos,

Lá batiam o queixo com sesões!

Tinham corrido já na adusta Hespanha,

Todo um fertil plató sem arvoredos,

Onde armavam barracas nos vinhedos,

Como tendas alegres de campanha.

Que pragas castelhanas, que alegrão,

Quanto contavam scenas de pousadas!

Adoravam as cintas encarnadas

E as côres, como os pretos do sertáo!

E tinham, sem que a lei a tal obrigue,

A educação vistosa das viagens!

Uns por terra partiam e estalagens,

Outros, aos montes, no convez d'um brigue!

Só um havia, triste e sem fallar

Que arrastava a maior misantropia,

E, roxo como um figado, bebia

O vinho tinto que eu mandava dar!

Pobre da minha geração exangue

De ricos! Antes, como os abrutados,

Andar com uns sapatos encebados,

E ter riqueza chimica no sangue!

* * * * *

Mas hoje a rustica lavoura, quer

Seja o patrão, quer seja o jornaleiro,

Que inferno! Em vão o lavrador rasteiro

E a filharada lidam, e a mulher!...

Desde o princípio ao fim é uma maçada

De mil demonios! Torna-se preciso

Ter-se muito vigor, muito juizo

Para trazer a vida equilibrada!

Hoje eu sei quanto custam a criar

As cepas, desde que eu as pódo e empo.

Ah! O campo não é um passatempo

Com bucolismos, rouxinoes, luar.

A nós tudo nos rouba e nos dizima:

O rapazio, o imposto, as pardaladas,

As osgas peçonhentas, achatadas,

E as abelhas que engordam na vindima.

E o pulgão, a lagarta, os caracoes,

E ha inda, alem do mais com que se ateima,

As intemperies, o granizo, a queima,

E a concorrencia com os hespanhoes.

Na vendas, os vinhateiros d'Almeria

Competem contra os nossos fazendeiros.

Dão frutas aos leilões dos estrangeiros,

Por uma cotação que nos desvia!

Pois tantos contras, rudes como são,

Forte e teimoso, o camponez destroe-os!

Venham de lá pesados os comboyos

E os «buques» estivados no porão!

Não, não é justo que eu a culpa lance

Sobre estes nadas! Puras bagatellas!

Nós não vivemos só de coisas bellas,

Nem tudo corre como n'um romance!

Para a Terra parir hade ter dor,

E é para obter as asperas verdades,
1   2   3   4   5   6   7

similar:

Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu iconOs seus costumes, os seus ritos, os seus segredos
«iniciado» nos segredos templários e não foi ele o «plantador de naus a haver», segundo a Mensagem de Fernando Pessoa, último Cavaleiro...

Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu iconNota: Este livro está configurado para o formato comum de um livro....

Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu iconEstudios Hispánicos: Lengua española y sus literaturas
«carne rasgada». Es una sustantivación del verbo σαρκάζειν (sarkázein, «morder los labios»), derivado del sustantivo σάρξ (sarks,...

Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu iconE de suas relações com o mundo corporal

Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu iconLivro I capítulo 1

Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu iconNovedades. Septiembre de 2007 Eduardo Moga
«Premio Adonáis», 1995), El barro en la mirada (1998), Unánime fuego (1999; 2ª edición en 2007); El corazón, la nada (1999), La montaña...

Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu iconProgramaçÃo literária do brasil na feira do livro de frankfurt 2013

Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu iconUma Jornada com Propósitos Aproveitando este livro ao máximo

Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu iconAquí vos deixo as probas dos concursos pasados ao final de cada unha...

Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu iconCeniza son mis labios






© 2015
contactos
l.exam-10.com