Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu






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O teu divino olhar que as pedras amollece,

E ha muito que me prendeu nos carceres do amor.

Os teus pequenos pés, aquelles pés suaves,

Julguei-os esconder por entre as minhas mãos,

E imaginei ouvir ao conversar das aves

As celicas canções dos anjos aos teus irmãos.

NOITE FECHADA

(L.)

Lembras-te tu do sabbado passado,

Do passeio que démos, devagar,

Entre um saudoso gaz amarellado

E as caricias leitosas do luar?

Bem me lembro das altas ruasinhas,

Que ambos nós percorremos de mãos dadas:

Ás janellas palravam as visinhas;

Tinham lividas luzes as fachadas.

Não me esqueço das cousas que disseste,

Ante um pesado templo com recortes;

E os cemiterios ricos, e o cypreste

Que vive de gorduras e de mortes!

Nós saíramos proximo ao sol-posto,

Mas seguiamos cheios de demoras;

Não me esqueceu ainda o meu desgosto

Nem o sino rachado que deu horas.

Tenho ainda gravado no sentido,

Porque tu caminhavas com prazer,

Cara rapada, gordo e presumido,

O padre que parou para te ver.

Como uma mitra a cúpula da egreja

Cobria parte do ventoso largo;

E essa bocca viçosa de cereja,

Torcia risos com sabor amargo.

A lua dava tremulas brancuras,

Eu ia cada vez mais magoado;

Vi um jardim com arvores escuras,

Como uma jaula todo gradeado!

E para te seguir entrei comtigo

N'um pateo velho que era d'um canteiro,

E onde, talvez, se faça inda o jazigo

Em que eu irei apodrecer primeiro!

Eu sinto ainda a flôr da tua pelle,

Tua luva, teu veu, o que tu és!

Não sei que tentação é que te impelle

Os pequeninos e cançados pés.

Sei que em tudo attentavas, tudo vias!

Eu por mim tinha pena dos marçanos,

Como ratos, nas gordas mercearias,

Encafunados por immensos annos!

Tu sorriras de tudo: Os carvoeiros,

Que apparecem ao fundo d'umas minas,

E á crua luz os pallidos barbeiros

Com oleos e maneiras femininas!

Fins de semana! Que miseria em bando!

O povo folga, estupido e grisalho!

E os artistas d'officio iam passando,

Com as ferias, ralados do trabalho.

O quadro anterior, d'um que á candêa,

Ensina a filha a ler, metteu-me dó!

Gosto mais do plebeu que cambalêa,

Do bebado feliz que falla só!

De subito, na volta de uma esquina,

Sob um bico de gaz que abria em leque,

Vimos um militar, de barretina

E galões marciaes de pechisbeque,

E em quanto elle fallava ao seu namoro,

Que morava n'um predio de azulêjo,

Nos nossos labios retinio sonoro

Um vigoroso e formidavel beijo!

E assim ao meu capricho abandonada,

Errámos por travessas, por viellas,

E passámos por pé d'uma tapada

E um palacio real com sentinellas.

E eu que busco a moderna e fina arte,

Sobre a umbrosa calçada sepulchral,

Tive a rude intenção de violentar-te

Imbecilmente como um animal!

Mas ao rumor dos ramos e d'aragem,

Como longiquos bosques muito ermos,

Tu querias no meio da folhagem

Um ninho enorme para nós vivermos.

E ao passo que eu te ouvia abstractamente,

Ó grande pomba tépida que arrulha,

Vinham batendo o macadam fremente,

As patadas sonoras da patrulha,

E atravez a immortal cidadesinha,

Nós fomos ter ás portas, ás barreiras,

Em que uma negra multidão se apinha

De tecelões, de fumos, de caldeiras.

Mas a noite dormente e esbranquiçada

Era uma esteira lucida d'amor;

Ó jovial senhora perfumada,

Ó terrivel creança! Que esplendor!

E ali começaria o meu desterro!...

Lodoso o rio, e glacial, corria;

Sentámo-nos, os dois, n'um novo aterro

Na muralha dos caes de cantaria.

Nunca mais amarei, já que não me amas,

E é preciso, decerto, que me deixes!

Toda a maré luzida como escamas,

Como alguidar de prateados peixes.

E como é necessario que eu me afoite

A perder-me de ti por quem existo,

Eu fui passar ao campo aquella noite

E andei leguas a pé, pensando n'isto.

E tu que não serás sómente minha,

Ás caricias leitosas do luar,

Recolheste-te, pallida e sósinha

Á gaiola do teu terceiro andar!

MANHANS BRUMOSAS

Aquella, cujo amor me causa alguma pena,

Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda,

E com a forte voz cantada com que ordena,

Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,

Por entre o campo e o mar, bucolica, morena,

Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

Que linguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglezas,

--Na Nevoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos!--

Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;

E o meu desejo nada em epoca de banhos,

E, ave de arribação, elle enche de surprezas

Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.

As irlandezas teem soberbos desmazelos!

Ella descobre assim, com lentidões ufanas,

Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;

E como aquellas são maritimas, serranas,

Suggere-me o naufragio, as musicas, os gelos

E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.

Parece um «rural boy»! Sem brincos nas orelhas,

Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,

Botões a tiracollo e applicações vermelhas;

E á roda, n'um paiz de prados e barrancos,

Se as minhas maguas vão, mansissimas ovelhas,

Correm os seus desdens, como vitellos brancos.

E aquella, cujo amor me causa alguma pena,

Põe o chapeo ao lado, abre o cabello á banda,

E com a forte voz cantada com que ordena,

Lembra-me, de manhan, quando nas praias anda,

Por entre o campo e o mar, catholica, morena,

Uma pastora de audaz da religiosa Irlanda.

FRIGIDA

I

Balzac é meu rival, minha senhora ingleza!

Eu quero-a porque odeio as carnações redondas!

Mas elle eternisou-lhe a singular belleza

E eu turbo-me ao deter seus olhos côr das ondas.

II

Admiro-a. A sua longa e placida estatura

Expõe a magestade austera dos invernos.

Não cora no seu todo a timida candura;

Dansam a paz dos ceos e o assombro dos infernos.

III

Eu vejo-a caminhar, fleugmatica, irritante,

N'uma das mãos franzindo um lenço de cambraia!...

Ninguem me prende assim, funebre, extravagante,

Quando arregaça e ondula a preguiçosa saia!

IV

Ouso esperar, talvez, que o seu amor me acoite,

Mas nunca a fitarei d'uma maneira franca;

Traz o esplendor do Dia e as pallidez da Noite,

É, como o Sol, dourada, e, como a Lua, branca!

V

Podesse-me eu prostrar, n'um meditado impulso,

Ó gelida mulher bizarramente estranha,

E tremulo depor os labios no seu pulso,

Entre a macia luva e o punho de bretanha!...

VI

Scintilla no seu rosto a lucidez das joias.

Ao encarar comsigo a phantasia pasma;

Pausadamente lembra o silvo das giboias

E a marcha demorada e muda d'um phantasma.

VII

Metallica visão que Charles Baudelaire

Sonhou e presentiu nos seus delirios mornos,

Permitta que eu lhe adule a distincção que fere,

As curvas de magreza e o lustre dos adornos!

VIII

Deslise como um astro, uma astro que declina;

Tão descançada e firme é que me desvaria,

E tem a lentidão d'uma corveta fina

Que nobremente vá n'um mar de calmaria.

IX

Não me imagine um doido. Eu vivo como um monge,

No bosque das ficções, ó grande flor do Norte!

E, ao, perseguil-a, penso acompanhar de longe

O socegado espectro angelico da Morte!

X

O seu vagar occulta uma elasticidade

Que deve dar um gosto amargo e deleitoso,

E a sua glacial impassibilidade

Exalta o meu desejo e irrita o meu nervoso.

XI

Porem, não arderei aos seus contactos frios,

E não me enroscará nos serpentinos braços:

Receio supportar febrões e calefrios;

Adoro no seu corpo os movimentos lassos.

XII

E se uma vez me abrisse o collo transparente,

E me osculasse, emfim, flexivel e submisso,

Eu julgaria ouvir alguem, agudamente,

Nas trevas, a cortar pedaços de cortiça!

DE VERÃO

A Eduardo Coelho

I

No campo; eu acho n'elle a musa que me anima:

A claridade, a robustez, a acção.

Esta manhã, saí com minha prima,

Em que eu noto a mais sincera estima

E a mais completa e séria educação.

II

Creança encantadora! Eu mal esboço o quadro

Da lyrica excursão, d'intimidade

Não pinto a velha ermida com seu adro;

Sei só desenho de compasso e esquadro,

Respiro industria, paz, salubridade.

III

Andam cantando aos bois; vamos cortando as leiras;

E tu dizias: «Fumas? E as fagulhas?

Apaga o teu cachimbo junto ás eiras;

Colhe-me uns brincos rubros nas ginjeiras!

Quando me alegra a calma das debulhas!»

IV

E perguntavas sobre os ultimos inventos

Agrícolas. Que aldeias tão lavadas!

Bons ares! Boa luz! Bons alimentos!

Olha: Os saloios vivos, corpulentos,

Como nos fazem grandes barretadas!

V

Voltemos. Na ribeira abundam as ramagens

Dos olivaes escuros. Onde irás?

Regressam os rebanhos das pastagens;

Ondeiam milhos, nuvens e miragens,

E, silencioso, eu fico para traz.

VI

N'uma collina azul brilha um logar caiado.

Bello! E arrimada ao cabo da sombrinha,

Com teu chapéo de palha, desabado,

Tu continúas na azinhaga; ao lado

Verdeja, vicejante, a nossa vinha.

VII

N'isto, parando, como alguem que se analysa,

Sem desprender do chão teus olhos castos,

Tu começaste, harmonica, indecisa,

A arregaçar a chita, alegre e lisa

Da tua cauda um poucochinho a rastos.

VIII

Espreitam-te, por cima, as frestas dos celleiros;

O sol abrasa as terras já ceifadas,

E alvejam-te, na sombra dos pinheiros,

Sobre os teus pés decentes, verdadeiros,

As saias curtas, frescas, engommadas.

IX

E, como quem saltasse, extravagantemente,

Um rego d'agua sem se enxovalhar,

Tu, a austera, a gentil, a intelligente,

Depois de bem composta, déste á frente

Uma pernada comica, vulgar!

X

Exotica! E cheguei-me ao pé de ti. Que vejo!

No atalho enxuto, e branco das espigas

Caidas das carradas no salmejo,

Esguio e a negrejar em um cortejo,

Destaca-se um carreiro de formigas.

XI

Ellas, em sociedade, espertas, diligentes,

Na natureza trémula de sede,

Arrastam bichos, uvas e sementes;

E atulha, por instincto, previdentes,

Seus antros quasi occultos na parede.

XII

E eu desatei a rir como qualquer macaco!

«Tu não as esmagares contra o solo!»

E ria-me, eu ocioso, inutil, fraco,

Eu de jasmim na casa do casaco

E d'oculo deitado a tiracolo!

XIII

«As ladras da colheita! Eu se trouxesse agora

Um sublimado corrosivo, uns pós

De solimão, eu, sem maior demora,

Envenenal-as-hia! Tu, por ora,

Preferes o romantico ao feroz.

XIV

Que compaixão! Julgava até que matarias

Esses insectos importunos! Basta.

Merecem-te espantosas sympathias?

Eu felicito suas senhorias,

Que honraste com um pulo de gymnasta!»

XV

E emfim calei-me. Os teus cabellos muito loiros

Luziam, com doçura, honestamente;

De longe o trigo em monte, e os calcadoiros,

Lembravam-me fusões d'immensos oiros,

E o mar um prado verde e florescente.

XVI

Vibravam, na campina, as chocas da manada;

Vinham uns carros a gemer no outeiro,

E finalmente, energica, zangada,

Tu inda assim bastante envergonhada,

Volveste-me, apontando o formigueiro:

XVII

«Não me incommode, não, com ditos detestaveis!

Não seja simplesmente um zombador!

Estas mineiras negras, incançaveis,

São mais economistas, mais notaveis,

E mais trabalhoras que o senhor.»

O SENTIMENTO D'UM OCCIDENTAL

A Guerra Junqueiro

I

AVE MARIAS

Nas nossas ruas, ao anoitecer,

Ha tal soturnidade, ha tal melancholia,

Que as sombras, o bulicio, o Tejo, a maresia

Despertam-me um desejo absurdo de soffrer.

O ceu parece baixo e de neblina,

O gaz extravasado enjôa-me, perturba;

E os edificios, com as chaminés, e a turba

Toldam-se d'uma côr monotona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,

Levando á via ferrea os que se vão. Felizes!

Occorrem-me em revista exposições, paizes:

Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,

As edificações sómente emmadeiradas:

Como morcegos, ao cair das badaladas,

Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,

De jaquetão ao hombro, enfarruscados, seccos;

Embrenho-me, a scismar, por boqueirões, por beccos,

Ou érro pelos caes a que se atracam botes.

E evoco, então, as chronicas navaes:

Mouros, baixeis, heroes, tudo resuscitado!

Lucta Camões no Sul, salvando um livro a nado!

Singram soberbas naus que eu não verei jámais!

E o fim da tarde inspira-me; e incommoda!

De um couraçado inglez vogam os escaleres;

E em terra n'um tinir de louças e talheres

Flammejam, ao jantar, alguns hoteis da moda.

N'um trem de praça arengam dois dentistas;

Um tropego arlequim braceja n'umas andas;

Os cherubins do lar fluctuam nas varandas;

Ás portas, em cabello, enfadam-se os logistas!

Vasam-se os arsenaes e as officinas;

Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;

E n'um cardume negro, herculeas, galhofeiras,

Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vem sacudindo as ancas opulentas!

Seus troncos varonis recordam-me pilastras;

E algumas, á cabeça, embalam nas canastras

Os filhos que depois naufragam nas tormentas,

Descalças! Nas descargas de carvão,

Desde manhã á noite, a bórdo das fragatas;

E apinham-se n'um bairro aonde miam gatas,

E o peixe pôdre géra os focos de infecção!

II

NOITE FECHADA

Toca-se as grades, nas cadeias. Som

Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
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