Aqui deponho em suas mãos e debaixo dos seus lábios o livro do seu






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Todas as minhas obras...

E estou melhor; passou-me a colera. E a visinha?

A pobre engommadeira ir-se-ha deitar sem ceia?

Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...

Que mundo! Coitadinha!

A DEBIL

Eu, que sou feio, solido, leal,

A ti, que és bella, fragil, assustada,

Quero estimar-te, sempre, recatada

N'uma existencia honesta, de crystal.

Sentado á mesa d'um café devasso,

Ao avistar-te, ha pouco, fraca e loura,

N'esta Babel tão velha e corruptora,

Tive tenções de offerecer-te o braço.

E, quando soccorreste um miseravel,

Eu, que bebia calices d'absintho,

Mandei ir a garrafa, porque sinto

Que me tornas prestante, bom, saudavel.

«Ella ahi vem!» disse eu para os demais;

E puz-me a olhar, véxado e suspirando,

O teu corpo que pulsa, alegre e brando,

Na frescura dos linhos matinaes.

Via-te pela porta envidraçada;

E invejava,--talvez que o não suspeites!--

Esse vestido simples, sem enfeites,

N'essa cintura tenra, immaculada.

Ia passando, a quatro, o patriarcha.

Triste eu sahi. Doía-me a cabeça;

Uma turba ruidosa, negra, espessa,

Voltava das exequias d'um monarcha.

Adoravel! Tu muito natural

Seguias a pensar no teu bordado;

Avultava, n'um largo arborisado,

Uma estatua de rei n'um pedestal.

Sorriam nos seus trens os titulares;

E ao claro sol, guardava-te, no entanto,

A tua boa mãe, que te ama tanto,

Que não te morrerá sem te casares!

Soberbo dia! Impunha-me respeito

A limpidez do teu semblante grego;

E uma familia, um ninho de socego,

Desejava beijar sobre o teu peito.

Com elegancia e sem ostentação,

Atravessavas branca, esvelta e fina,

Uma chusma de padres de batina,

E d'altos funccionarios da nação.

«Mas se a atropella o povo turbolento!

Se fosse, por acaso, alli pisada!»

De repente, paraste embaraçada

Ao pé d'um numeroso ajuntamento.

E eu, que urdia estes faceis esbocetos,

Julguei vêr, com a vista de poeta,

uma pombinha timida e quieta

N'um bando ameaçador de corvos pretos.

E foi, então, que eu homem varonil,

Quiz dedicar-te a minha pobre vida,

A ti, que és tenue, docil, reconhecida,

Eu, que sou habil, pratico, viril.

N'UM BAIRRO MODERNO

A Manuel Ribeiro

Dez horas da manhã; os transparentes

Matizam uma casa apalaçada;

Pelos jardins estancam-se os nascentes,

E fere a vista, com brancuras quentes,

A larga rua macadamisada.

Rez-de-chaussée repousam socegados,

Abriram-se, n'alguns, as persianas,

E d'um ou d'outro, em quartos estucados,

Ou entre a rama dos papeis pintados,

Reluzem, n'um almoço, as porcelanas.

Como é saudavel ter o seu conchego,

E a sua vida facil! Eu descia,

Sem muita pressa, para o meu emprego,

Aonde agora quasi sempre chego

Com as tonturas d'uma apoplexia.

E rota, pequenina, aramafada,

Notei de costas uma rapariga,

Que no xadrez marmoreo d'uma escada,

Como um retalho de horta agglomerada,

Pousára, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a:

Poz-se de pé: resoam-lhe os tamancos;

E abre-se-lhe o algodão azul da meia,

Se ella se curva, esguedelhada, feia,

E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:

«Se te convém, despacha; não converses.

Eu não dou mais.» E muito descançado,

Atira um cobre livido, oxidado,

Que vem bater nas faces d' uns alperces.

Subitamente,--que visão de artista!--

Se eu transformasse os simples vegetaes,

Á luz do sol, o intenso colorista,

N'um ser humano que se mova e exista

Cheio de bellas proporções carnaes?!

Boiam aromas, fumos de cozinha;

Com o cabaz ás costas, e vergando,

Sobem padeiros, claros de farinha;

E ás portas, uma ou outra campainha

Toca, frenetica, de vez em quando.

E eu recompunha, por anatomia,

Um novo corpo organico, aos bocados.

Achava os tons e as fórmas. Descobria

Uma cabeça n'uma melancia,

E n'uns repolhos seios injectados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,

Negras e unidas, entre verdes folhos,

São tranças d'um cabello que se ageite;

E os nabos--ossos nus, da côr do leite,

E os cachos d'uvas--os rosarios d'olhos.

Ha collos, hombros, boccas, um semblante

Nas posições de certos fructos. E entre

As hortaliças, tumido, fragrante,

Como d'alguem que tudo aquilo jante,

Surge um melão, que me lembrou um ventre.

E, como um feto, emfim, que se dilate,

Vi nos legumes carnes tentadoras,

Sangue na ginja vivida, escarlate,

Bons corações pulsando no tomate

E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O sol dourava o céo. E a regateira,

Como vendera a sua fresca alface

E déra o ramo de hortelã que cheira,

Voltando-se, gritou-me prazenteira:

«Não passa mais ninguem!... Se me ajudasse?!...»

Eu acerquei-me d'ella, sem desprezo;

E, pelas duas azas a quebrar,

Nós levantámos todo aquelle peso

Que ao chão de pedra resistia preso,

Com um enorme esforço muscular.

«Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!»

E recebi, náquella despedida,

As forças, a alegria, a plenitude,

Que brotam d'um excesso de virtude

Ou d'uma digestão desconhecida.

E em quanto sigo para o lado opposto,

E ao longe rodam umas carruagens,

A pobre afasta-se, ao calor de agosto,

Descolorida nas maçãs do rosto,

E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira

D'uma janella azul; e, com o ralo

Do regador, parece que joeira

Ou que borrifa estrellas; e a poeira

Que eleva nuvens alvas e incensal-o.

Chegam do gigo emanações sadias,

Oiço um canario--que infantil chilrada!--

Lidam ménages entre as gelosias,

E o sol estende, pelas frontarias,

Seus raios de laranja distillada.

E pittoresca e audaz, na sua chita,

O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,

D'uma desgraça alegre que me incita,

Ella apregôa, magra, enfezadita,

As suas couves repolhudas, largas.

E como as grossas pernas d'um gigante,

Sem tronco, mas athleticas, inteiras,

Carregam sobre a pobre caminhante,

Sobre a verdura rustica, abundante,

Duas frugaes aboboras carneiras.

CRYSTALISAÇÕES

A Bettencourt Rodrigues

Faz frio. Mas, depois d'uns dias de aguaceiros,

Vibra uma immensa claridade crua.

De cocaras, em linha os calceteiros,

Com lentidão, terrosos e grosseiros,

Calcam de lado a lado a longa rua.

Como as elevações seccaram do relento,

E o descoberto sol abafa e cria!

A frialdade exige o movimento;

E as poças d'agua, como em chão vidrento,

Reflectem a molhada casaria.

Em pé e perna, dando aos rins que a marcha agita,

Disseminadas, gritam as peixeiras;

Luzem, aquecem na manhã bonita,

Uns barracões de gente pobresita.

E uns quintalorios velhos com parreiras.

Não se ouvem aves; nem o choro d'uma nora!

Tomam por outra parte os viandantes;

E o ferro e a pedra--que união sonora!--

Retinem alto pelo espaço fóra,

Com choques rijos, asperos, cantantes.

Bom tempo. E os rapagões, morosos, duros, baços,

Cuja columna nunca se endireita,

Partem penedos; cruzam-se estilhaços.

Pesam enormemente os grossos maços,

Com que outros batem a calçada feita.

A sua barba agreste! A lã dos seus barretes!

Que espessos forros! N'uma das regueiras

Acamam-se as japonas, os colletes:

E elles descalçam com os picaretes,

Que ferem lume sobre pederneiras.

E n'esse rude mez, que não consente as flores,

Fundêam, como a esquadra em fria paz,

As arvores despidas. Sobrias côres!

Mastros, enxarcias, vergas! Valladores

Atiram terra com as largas pás.

Eu julgo-me no Norte, ao frio--o grande agente!--

Carros de mão, que chiam carregados,

Conduzem saibro, vagarosamente;

Vê se a cidade, mercantil, contente:

Madeiras, aguas, multidões, telhados!

Negrejam os quintaes, enxuga e alvenaria;

Em arco, sem as nuvens fluctuantes,

O ceu renova a tinta corredia;

E os charcos brilham tanto, que eu diria

Ter ante mim lagôas de brilhantes!

E engelhem muito embora, os fracos, os tolhidos,

Eu tudo encontro alegremente exacto.

Lavo, refresco, limpo os meus sentidos.

E tangem-me, excitados, sacudidos,

O tacto, a vista, o ouvido, o gosto, o olfacto!

Pede-me o corpo inteiro esforços na friagem

De tão lavada e egual temperatura!

Os ares, o caminho, a luz reagem;

Cheira-me a fogo, a silex, a ferragem;

Sabe-me a campo, a lenha, a agricultura.

Mal encarado e negro, um pára emquanto eu passo;

Dois assobiam, altas as marretas

Possantes, grossas, temperadas d'aço;

E um gordo, o mestre, com um ar de ralaço

E manso, tira o nivel das valletas.

Homens de carga! Assim as bestas vão curvadas!

Que vida tão custosa! Que diabo!

E os cavadores pousam as enxadas,

E cospem nas callosas mãos gretadas,

Para que não lhes escorregue o cabo.

Povo! No panno cru rasgado das camizas

Uma bandeira penso que transluz!

Com ella soffres, bebes, agonisas:

Listrões de vinho lançam-lhe divisas,

E os suspensorios traçam-lhe uma cruz!

D'escuro, bruscamente, ao cimo da barroca,

Surge um perfil direito que se aguça;

E ar matinal de quem sahiu da toca,

Uma figura fina, desemboca,

Toda abafada n'um casaco á russa.

D'onde ella vem! A actriz que tanto comprimento

E a quem, á noite na plateia, attraio

Os olhos lizos como polimento!

Com seu rostinho estreito, friorento,

Caminha agora para o seu ensaio.

E aos outros eu admiro os dorsos, os costados

Como lajões. Os bons trabalhadores!

Os filhos das lezirias, dos montados;

Os das planicies, altos, aprumados;

Os das montanhas, baixos, trepadores!

Mas fina de feições, o queixo hostil, distincto,

Furtiva a tiritar em suas pelles,

Espanta-me a actrizita que hoje pinto,

N'este dezembro energico, succinto,

E n'estes sitios suburbanos, reles!

Como animaes communs, que uma picada esquente,

Elles, bovinos, masculos, ossudos,

Encaram-n'a sanguinea, brutamente:

E ella vacilla, hesita impaciente

Sobre as botinhas de tacões agudos.

Porém, desempenhando o seu papel na peça,

Sem que inda o publico a passagem abra,

O demonico arrisca-se, atravessa

Covas, entulhos, lamaçaes, depressa,

Com seus pésinhos rapidos, de cabra!

NOITES GELIDAS

MERINA

Rosto comprido, airosa, angelical, macia,

Por vezes, a allemã que eu sigo e que me agrada,

Mais alva que o luar de inverno que me esfria,

Nas ruas a que o gaz dá noites de ballada;

Sob os abafos bons que o Norte escolheria,

Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,

Recorda-me a elegancia, a graça, a galhardia

De uma ovelhinha branca, ingenua e delicada.

SARDENTA

Tu, n'esse corpo completo,

Ó lactea virgem doirada,

Tens o lymphatico aspecto

D'uma camelia melada.

FLORES VELHAS

Fui hontem visitar o jardimzinho agreste,

Aonde tanta vez a luz nos beijou,

E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,

Soberba como um sol, serena como um vôo.

Em tudo scintillava o limpido poema

Com osculos rimado ás luzes dos planetas;

A abelha inda zumbia em torno da alfazema;

E ondulava o matiz das leves borboletas.

Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,

A imagem que inspirava os castos madrugaes;

E as virações, o rio, os astros, a pasizagem,

Traziam-me á memoria idyllios immortaes.

Diziam-me que tu, no florido passado,

Detinhas sobre mim, ao pé d'aquellas rosas,

Aquelle teu olhar moroso e delicado,

Que fala de languor e d'emoções mimosas;

E, ó pallida Clarisse, ó alma ardente e pura,

Que não me desgostou nem uma vez sequer,

Eu não sabia haurir do calix da ventura

O nectar que nos vem dos mimos da mulher.

Falou-me tudo, tudo, em tons commovedores,

Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes;

As falas quasi irmãs do vento com as flores

E a molle exhalação das varzeas rescendentes.

Inda pensei ouvir aquellas coisas mansas

No ninho de affeições creado para ti,

Por entre o riso claro, e as vozes das creanças,

E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri.

Lembrei-me muito, muito, ó symbolo das santas,

Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas,

E sob aquelle ceo e sobre aquellas plantas

Bebemos o elixir das tardes perfumadas.

E nosso bom romance escripto n'um desterro,

Com beijos sem ruido em noites sem luar,

Fizeram-m'o reler, mais tristes que um enterro,

Os goivos, a baunilha e as rosas de toucar.

Mas tu agora nunca, ah! nunca mais te sentas

Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,

E eu não beijarei, ás horas somnolentas,

Os dedos de marfim, polidos e delgados...

Eu, por não ter sabido amar os movimentos

Da estrophe mais ideal das harmonias mudas,

Eu sinto as decepções e os grandes desalentos

E tenho um riso mau como o sorrir de Judas.

E tudo emfim passou, passou como uma penna,

Que o mar leva no dorso exposto aos vendavaes,

E aquella doce vida, aquella vida amena,

Ah! nunca mais virá, meu lyrio, nunca mais!

Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante!

Quando hontem eu pisei, bem magro e bem curvado,

A areia em que rangia a saia roçagante,

Que foi na minha vida o ceo aurirosado,

Eu tinha tão impresso o cunho da saudade,

Que as ondas que formei das suas illusões

Fizeram-me enganar na minha soledade

E as azas ir abrindo ás minhas impressões.

Soltei com devoção lembranças inda escravas,

No espaço construi phantasticos castellos,

No tanque debrucei-me em que te debruçavas,

E onde o luar parava os raios amarellos.

Cuidei até sentir, mais doce que uma prece,

Suster a minha fé, n'um veo consolador,
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