Luiz maklouf carvalho revista Piauí






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Na Casa Civil


O secretário particular do presidente, Gilberto Carvalho, recebeu-me em seu gabinete e contou que, no início do governo, Dilma Rousseff via Lula pelo menos uma vez por semana. "Duas coisas colocaram a ministra Dilma no visor do presidente: a coragem de encarar situações difíceis e a capacidade técnica", disse.
A ministra contava com o apoio dos dois pilares do governo: os ministros Antonio Palocci, da Fazenda, e José Dirceu, da Casa Civil. Mas o escândalo do mensalão provocou a queda de José Dirceu. E o caseiro Francenildo dos Santos Costa teve o seu sigilo bancário violado e Palocci saiu do governo. Com a debacle dos dois, em vez de perder poder, Dilma ficou mais forte: Lula a nomeou chefe da Casa Civil.
O ministro da Comunicação Social, Franklin Martins, que trabalha no mesmo andar de Gilberto Carvalho, é um dos três ex-guerrilheiros do primeiro escalão, junto com Carlos Minc, do Meio Ambiente, e Dilma Rousseff. Brinquei com Martins dizendo que o governo Lula era o que tinha o maior número de ex-guerrilheiros no mundo. "Um dos maiores", ele devolveu, sorrindo.
Por que Lula escolheu Dilma para a Casa Civil? Franklin Martins respondeu: "Naquele momento, ela tinha conquistado uma confiança muito grande do presidente. O Ministério das Minas e Energia não era periférico. Lula sabia que outro apagão seria desastroso. E ela executava, trazia resultados. Lula percebeu que ela fazia as coisas andarem."
O presidente percebeu também que, por mais penosas que tivessem sido as quedas de Dirceu e Palocci, ele se livrara da disputa surda entre os dois superministros: ambos almejavam sucedê-lo. Além de Dilma não cogitar a Presidência da República, tinha a vantagem de não ser uma petista orgânica. Viera do pdt e não integrava nenhuma das alas do pt, o que facilitava o seu trânsito.
"Com a indicação da Dilma, o presidente surpreendeu todos nós, inclusive a mim", disse Gilberto Carvalho. O "a mim" se justifica: Carvalho está com Lula quase todo o tempo, durante a jornada de trabalho. Seria natural que tocasse no assunto. Mas Carvalho garante que o presidente não lhe falou nada. Ao escolher Dilma, Lula quis tirar a Casa Civil dos holofotes e dar-lhe uma feição mais técnica, mais gerencial do que o perfil político implementado por José Dirceu.
"Foi uma sacada solitária do presidente, como algumas que ele costuma ter", disse Carvalho. Ao ser informado da escolha de Dilma, o secretário demonstrou surpresa e apreensão. Lula captou a preocupação e tranquilizou seu secretário: "A parte política a gente toca." Lula também não consultou José Dirceu sobre quem o sucederia na Casa Civil. "Fui informado pelo presidente e a apoiei, de forma enfática, desde o primeiro momento", disse ele. "E não errei: a ministra tem estado à altura do cargo e das responsabilidades."
Na intimidade, Dilma chama Carvalho de Gilbertinho, e ele a chama de Tia. Ela deu-lhe de presente as obras completas de Adélia Prado, e ganhou do ex-seminarista uma imagem de São Francisco de Assis. Num café da manhã, a ministra contou ao secretário que ser indicada para a Casa Civil foi um susto muito maior do que a indicação para Minas e Energia. Disse-lhe que realmente não esperava, e estava com medo de não dar conta do recado.
Dilma levou para a Casa Civil alguns gaúchos de confiança. Deixou outros nas Minas e Energia, onde ainda manda bastante, e em estatais do setor elétrico. É o caso de Valter Cardeal, diretor da Eletrobrás. Levou também Erenice Guerra, seu braço direito, e o advogado Beto Vasconcelos, seu chefe do setor jurídico, que despacha com Lula quase que diariamente. É ele quem leva a papelada que move o governo para o presidente assinar. Beto é filho de um ex-companheiro de militância, cadeia e tortura da ministra, o advogado Gilberto Vasconcelos. Pelo menos duas outras companheiras das mesmas agruras são suas assessoras: Celeste Martins e Sônia Maria Lacerda. Todos eles sabem que a chefa tem um temperamento áspero - e tomam cuidados para não irritá-la.
Já estava na Casa Civil, desde os tempos de José Dirceu, Miriam Belchior, do pt de São Paulo, uma funcionária organizada, eficaz e mandona. As duas tiveram vários atritos. "Vocês têm que se dar bem", Lula disse a ambas mais de uma vez. Se não morrem de amores uma pela outra, agora trabalham em harmonia." Miriam Belchior é uma das responsáveis pelo acompanhamento das obras do pac, o Programa de Aceleração do Crescimento que é a menina dos olhos de Lula e serve de alavanca para Dilma forjar uma imagem pública de "fazedora" e boa gerente.
Na Casa Civil, Dilma passou a se reunir com o presidente praticamente todos os dias de trabalho, e até em feriados e, excepcionalmente, nos finais de semana, quando é convidada a jogar mexe-mexe, um jogo de cartas, com dona Marisa e o marido. Tirante o círculo de assessores diretos - Gilberto Carvalho, Franklin Martins e Clara Ant -, Dilma é quem mais vê Lula. Chama-o de presidente, ou de senhor presidente, e o presidente a chama de dona Dilma, ou de Dilminha.
Um levantamento feito pelo gabinete pessoal do presidente mostra que, desde que assumiu a Casa Civil, em junho de 2005, até o dia 17 do mês passado - somando-se os despachos entre ela e o presidente, reuniões com outros ministros, audiências com gente de fora, cerimônias, viagens, cafés da manhã, almoços e jantares -, a ministra e o presidente estiveram juntos

1 093 vezes. Em 49 meses, é uma média de mais que um encontro por dia útil. As reuniões entre o presidente e a ministra, sozinhos, foram 144 - três por mês.
O levantamento permite ver que a doença da ministra diminuiu o número de reuniões dela com o presidente: foram nove encontros entre janeiro e 17 de junho deste ano, sendo que nenhum em maio e em junho. No primeiro semestre do ano passado, foram 25 despachos.
Nas audiências com representantes de entidades, empresários, visitas internacionais e imprensa -, a ministra esteve presente 352 vezes. Tomou café, almoçou ou jantou com o presidente 28 vezes. Acompanhou-o em nove viagens internacionais e 77 nacionais. As viagens pelo Brasil deslancharam depois do lançamento do pac: foram 27 em 2008 e já vinte este ano, mais do que o dobro das onze em 2006 e doze em 2007.
Gilberto Carvalho explicou o que a ministra da Casa Civil faz: "Ela chama ministro por ministro, vê os projetos de cada um, o que é que está entravando as ações do governo, e sai destravando."

Candidata


O ministro Franklin Martins, que esteve presente em reuniões entre a ministra e o presidente, fez a seguinte avaliação da química entre ambos: "Eles têm uma relação de pai e filha. Ele, de um pai com um orgulho imenso da filha, por saber que ela tem qualidades, capaci-dade de ir ao essencial e produzir resultados. E ela o admira profundamente e tem uma absoluta lealdade a ele."
Expus à própria ministra a interpretação de Franklin Martins, e ela caracterizou assim sua relação com o presidente:
O presidente me cobra quando tem que cobrar. Mas tenho que reconhecer que, muitas vezes, afetivamente - e mais ainda com essa história da doença -, ele me protege. Agora, a nossa relação é muito objetiva: eu tenho metas para realizar, cumpro o que prometo, dou satisfações. Não recebo nenhuma facilidade nisso. Mas ele é uma pessoa extremamente afetiva, que respeita a dimensão pessoal. Na minha doença, ele foi extremamente protetor. O presidente combina muito bem a intuição, o saber emocional, com a mais fria razão, com a avaliação racional. Por isso ele é uma figura excepcional.
Lula também gosta da disposição aguerrida dela em defender os interesses do governo, principalmente quando a briga é com gente poderosa.
Uma dessas brigas foi travada com a Odebrecht, quando a empreiteira perdeu o leilão para a hidrelétrica de Jirau. A empresa tinha levado a hidrelétrica de Santo Antônio, no mesmo rio Madeira, em Rondônia, e estava certa de levar a de Jirau. Mas perdeu para um consórcio que incluía a Tractebel e a Camargo Corrêa. Além de surpresa com a derrota, a Odebrecht soube, só após o resultado do leilão, que o projeto vencedor projetara a usina em um local a 12 quilômetros do que estava acertado. A mudança possibilitou a redução drástica do preço da tarifa - e foi esse o critério que prevaleceu, coincidindo com a posição da ministra.
A Odebrecht reclamou do que considerou uma truculência, e ameaçou ir à Justiça. Mas não foi. A versão do Planalto é que tanto a ministra quanto o presidente se empenharam muito - junto a Emílio Odebrecht e seu filho Marcelo, respectivamente - para evitar a pendência judicial. Não é uma versão que a Odebrecht assine embaixo. A empreiteira não foi à Justiça porque o Ministério Público o fez. Solicitada a municiar essas ações, não economizou documentos. A direção da empreiteira ficou vivamente impressionada, para não dizer assustada, com a energia da ministra no embate. (Procurada, a Odebrecht não falou sobre a disputa.)
Impressão semelhante teve a multinacional Neoenergia quando tentou comprar as ações da Votorantim na cpfl Energia, uma poderosa holding do setor elétrico controlada pela empreiteira Camargo Corrêa. Depois de fazer uma oferta que até um outro sócio da cpfl, a Previ, considerou ótima, a Neoenergia viu a própria Camargo Corrêa comprar as ações.
Quando começaram a circular no governo as notícias de que a Petrobras havia descoberto enormes depósitos de óleo no fundo do mar, Clara Ant, assessora especial do presidente, cruzou com a chefe da Casa Civil num corredor do Planalto e lhe disse, entusiasmada: "Dilma, você é o nosso pré-sal!" A ministra não entendeu a brincadeira. Clara Ant queria dizer que, pela sua avaliação do xadrez político, e não por dispor de informações concretas, Dilma tinha condições de ser uma peça no jogo sucessório, talvez a rainha. A ministra era uma descoberta inesperada e com enorme potencial futuro - um pré-sal político.
Os nomes de que Lula dispunha para jogar no tabuleiro sucessório cabiam nos dedos da sua mão. Todos eram ministros e do pt: Marta Suplicy, do Turismo, Tarso Genro, da Justiça, Fernando Haddad, da Educação, e Patrus Ananias, do Desenvolvimento Social.
Cada qual tinha sua cota de virtudes e problemas. Marta é mulher e é conhecida nacionalmente, mas foi derrotada por José Serra no governo de São Paulo. Tarso foi responsável pela implantação de um dos programas vitoriosos do governo, o ProUni, e assumiu a presidência do pt e pacificou o partido num momento de grande perigo, a crise do mensalão. Mas está à esquerda de Lula e lidera uma das tendências do pt. Haddad é jovem, operoso e não tem imagem de político, mas nunca disputou eleição, não tem trânsito junto ao empresariado nem proximidade com o presidente, além de não dispor de apoio na base principal do pt, São Paulo. Patrus Ananias é sério, mas seu trabalho no governo não deslanchou e é desconhecido fora de Minas Gerais.
Lula surpreendeu todos não apenas por ter escolhido Dilma, e sim porque se adiantou a todas as articulações e botou a sucessão na rua, impedindo que os pré-candidatos organizassem suas forças. A preferência do presidente se manifestou, junto ao seu círculo mais próximo, quando o pac começou a ser pensado, no primeiro semestre de 2007.
Em tom de brincadeira, o presidente dizia frases como "Estou pensando em lançar a Dilma candidata". Como as repetisse, constatou-se que não era piada. Era uma sondagem informal em vias de se tornar realidade.
Carvalho não escondeu a surpresa. Considerava a ministra um quadro técnico, de perfil gerencial. "Temos que prepará-la politicamente", sugeriu ele a Lula. "Essas coisas a gente vai ajeitando", respondeu o presidente. "Dilma é inteligente, ela vai aprendendo."
A sondagem do presidente chegou tempos depois à imprensa. O pt foi pego de calças curtas e não combateu a escolha de Dilma. O único a esboçar um gesto de resistência foi Tarso Genro, mas já no final de 2008. Ele deu a entender, em uma entrevista à Folha de S.Paulo, que achava que o lançamento de Dilma poderia ter sido precipitado, mas logo em seguida ressalvou: "Sempre que achei que o presidente tinha dito uma coisa arriscada, eu estava errado e ele, certo." Lula não disse nada ao ministro da Educação, mas falou a outros que Tarso não deveria ter falado aquilo.
Lula reforçou sua convicção no dia em que a ministra, em pleno Congresso, com platéia e televisão, passou um pito no senador José Agripino, do dem. Foi em maio de 2008, na Comissão de Infraestrutura. A ministra havia dito, em entrevista à Folha, que, durante a tortura, usara a tática da mentira como forma de sobrevivência, e que tinha muito orgulho disso. Agripino levou a frase ao pé da letra e insinuou que a ministra, se mentira antes, poderia mentir em outras ocasiões. Dilma lhe passou uma descompostura. "Não tive a intenção de ofendê-la", disse o senador em seu gabinete. "Ela se vitimizou. Porque eu perguntei sobre sinceridade, e ela me respondeu sobre tortura."
No ano passado, a deputada Maria do Rosário procurou a ministra. Queria o seu apoio, na disputa interna no pt gaúcho, contra o ex-ministro Miguel Rosseto, para se lançar candidata a prefeita de Porto Alegre. "Estou apoiando o seu adversário", disse-lhe Dilma, sem enrolar. "Mas, se você ganhar a Convenção, terá o meu apoio." Rosário ganhou. "Ela cumpriu a palavra", contou a deputada.
A ministra esteve duas vezes em Porto Alegre para participar da campanha. Numa delas, esqueceu um batom vermelho-acobreado no estúdio de gravação. "Foi uma confusão", contou Rosário. "A assessoria dela deixou a minha equipe maluca. Ela queria porque queria o batom. Graças a Deus um assessor meu achou, e mandamos para Brasília." A deputada diz que a ministra, como candidata, "tem uma qualidade que todos os outros petistas não têm: o apoio do presidente Lula".
Em quatro meses de apuração desta reportagem, durante os quais foram entrevistadas setenta pessoas, nenhuma disse que Lula discutiu com Dilma, diretamente, a sua candidatura à sucessão. A começar pela ministra. "Nunca conversei sobre essa questão com o presidente", afirmou. Por isso, ela diz: "Não sou candidata ainda."
Mas ocorre de Lula fazer piada sobre o assunto na frente dela. "Quem disse que a Dilma é a candidata?", perguntou o presidente, por exemplo, a Franklin Martins e Gilberto Carvalho quando os dois, na frente da ministra, puxaram propositalmente o assunto.
Carvalho se lembra de um almoço com Dilma. Ele falou: "Tia, se prepara porque você é a bola da vez." Ela disse: "Mas como, Gilbertinho, se ele nunca falou comigo a respeito?" O secretário particular do presidente contrapôs: "E talvez nunca fale. Mas se prepara porque a coisa vai indo."
Foi o que a ministra fez, e continua fazendo, mesmo depois de saber que tinha um câncer linfático. Ela manteve o diagnóstico em segredo o máximo que pôde. O presidente só soube que ela faria uma cirurgia 48 horas antes. Sua filha Paula, na véspera. "Fica tranquilo, eu vou tirar de letra" foi a frase pós-cirurgia mais dita aos amigos de governo.
A ministra incorporou a idéia de que estava curada, e de que era preciso fazer o tratamento apenas para que não houvesse recidiva. Com isso na cabeça, manteve o ritmo de trabalho. Quem tenta convencê-la a diminuir, ou até a se licenciar, ouve, além de uma aula sobre a doença, a explicação de que efeitos colaterais da quimioterapia - como dores fortes nas pernas que a levaram com urgência para o hospital - são consequências dos medicamentos, e não do seu ritmo de trabalho. "Ela tem muita dificuldade de assimilar a fragilidade", disse Carvalho. "A gente tem que dar bronca para ela se dar ao direito de não abusar."
Encerrada a quimioterapia, Dilma parte agora para a radioterapia. No final do mês, fará a primeira de quinze aplicações. "É um tratamento menos invasivo, não tem efeitos colaterais, ou seja, não cai cabelo, não dá enjôo, não diminui a fome, não te altera", disse. "Farei a radioterapia no Hospital Sírio-Libanês, que, ao que me consta, tem aparelhos bastante precisos."
A literatura médica estabelece que, numa paciente com as condições e o tratamento de Dilma, a possibilidade de a doença voltar é de apenas 10%. Isso significa que, ainda que reduzida, existe a possibilidade de que ela não possa vir a disputar a eleição por motivos de saúde. Nesse caso, qual seria a alternativa que Lula teria em mente? O ministro Franklin Martins ouviu a pergunta e respondeu de bate-pronto: "O presidente pode ter um plano B, mas não pode comentá-lo com absolutamente ninguém. Porque, em política, o aparecimento de um plano B inviabiliza imediatamente o plano A. Por isso a candidata é Dilma."
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