Luiz maklouf carvalho revista Piauí






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No governo gaúcho


O ex-governador Alceu Collares, nos seus 81 anos, continua simpático, falante e de posse de uma portentosa memória declamativa. Há que vê-lo, mal a manhã raiou, a escandir, tonitruante e com gestos largos, os versos do poema "O voto é tua arma", de sua própria lavra. Pedetista, ele foi o primeiro prefeito de Porto Alegre eleito diretamente depois da ditadura. O deputado Araújo e Dilma sustentaram a sua candidatura de corpo e alma. Parte expressiva da campanha, inclusive o programa de governo, foi planejada na casa à beira do Guaíba.
Na eleição para o governo estadual, contudo, o pdt tomou uma lavada do candidato peemedebista Pedro Simon. "Foi quase um milhão de votos na frente deles", comemora ainda hoje o senador. Entre outros motivos, porque a chapa pedetista juntava o brizolista Aldo Pinto com um dos quadros civis da ditadura, Nelson Marchezan (seu vice). "A Dilma foi uma grande assessora da nossa campanha", disse o ex-deputado Aldo Pinto. "Ela acreditava muito no pdt", explicou Vera Stringuini. "Empolgada com Brizola, ela me tirou na marra do pt e me levou para o pdt. A exigência da aliança com o Marchezan foi do Brizola. Tivemos que engolir aquele sapo."
Ainda hoje, Dilma faz um raciocínio tortuoso para dizer que a aliança "pode ter sido" um equívoco: "Marchezan foi líder da ditadura, mas nunca foi um enragé. A ala Marchezan era a ala da pequena propriedade radicalizada. E ele era um cara ético."
Alceu Collares disse que, por influência de Carlos Araújo, "mas também pela competência dela", nomeou Dilma para o seu primeiro cargo executivo, o de secretária municipal da Fazenda.
Dilma se afastou do cargo para se dedicar à primeira campanha do marido à prefeitura de Porto Alegre, em 1988, contra o petista Olívio Dutra. Foi substituída na Secretaria da Fazenda pelo advogado e jornalista Políbio Braga.
No salão de café de um hotel cinco-estrelas, Políbio Braga contou que, antes que decidisse aceitar o cargo, Dilma o chamou para uma conversa e disse: "Não assume não, que isso pode manchar a tua biografia. Eu não consigo controlar esses loucos e estou saindo antes que manche a minha." Collares afirmou que a gestão de Dilma "foi da maior transparência e competência". Políbio Braga tem outra lembrança: "Ela não deixou sequer um relatório, e a Secretaria era um caos."
A eleição de Olívio Dutra inaugurou os dezesseis anos em que o pt gaúcho ficou no poder. Com o pdt em baixa, Dilma Rousseff foi nomeada, em 1989, diretora-geral da Câmara Municipal de Porto Alegre. Joaquim Felizardo foi funcionário da Câmara no mesmo período. Ele contou que Dilma foi demitida pelo presidente da Casa, o vereador Valdir Fraga, porque chegava tarde ao trabalho. "Eu hoje brinco com o Fraga: 'Tu conseguiu exonerar a mulher que vai mandar no país, tchê!'" O ex-vereador Valdir Fraga tem uma versão mais benigna para a demissão: "Eu a exonerei porque houve um problema com o relógio de ponto."
Collares foi eleito governador em 1990 e Dilma virou presidente da fee, na qual ficou até o fim de 1993. O peso de Araújo e de seu grupo de militantes, que era forte e articulado, ajudou Dilma a ser nomeada para a Secretaria de Energia, Minas e Comunicações. Ficou no cargo até dezembro de 1994. Nos últimos meses de trabalho, seu casamento chegou ao fim.
A tarde ia se pondo sobre o Guaíba e Araújo levantou-se, foi a uma estante e pegou um porta-retrato onde aparecem seus filhos Rodrigo, de 14 anos, e Paula, ao lado do marido. A gravidez da mãe de Rodrigo, entre 1994 e 1995, pôs fim aos 26 anos de casamento entre Dilma e Carlos Araújo. Ao saber, Dilma botou as coisas dele em malas e ele saiu da própria casa. "Aconteceu", contou Araújo. "Havia um desgaste na nossa relação afetiva."
Vera Stringuini, a amiga do curso de teatro, consolou Dilma. Para comentar a separação, ela recorreu a uma frase do filme Frida Kahlo, a pintora mexicana que teve um caso com Leon Trotsky quando era casada com o muralista Diego Rivera: "Tu podes ser infiel, mas não podes ser desleal." Vera disse: "A deslealdade cria uma rachadura, e Dilma não aguentou."
"Depois a gente se reconciliou e voltei para casa", contou Araújo. O acerto durou até o ano 2000, quando Dilma alugou um apartamento e se mudou. Araújo namora uma arquiteta que se dá bem com Dilma. Seus três filhos convivem sem problemas entre si e Dilma se dá bem com todos eles, inclusive Rodrigo. "Tenho muito orgulho da Dilma", disse Araújo. Eles se encontram com frequência e se falam sempre pelo telefone. Ao saber que a ministra tinha câncer, Araújo foi a Brasília e ficou uns dias com ela.
Acabado o governo Collares, Dilma voltou para a Fundação de Economia e Estatística e foi editora da sua revista Indicadores Econômicos. Publicou ali alguns artigos técnicos com discretos laivos políticos. Um deles, "A privatização do setor elétrico no Chile: o erro mudou", de 26 pá-ginas, critica os excessos nos dois sistemas - o estatal e o privado - e defende uma solução híbrida, com controle e regulação do primeiro sobre o segundo. Num trecho, a ministra sustenta que a propriedade privada não garante a ausência de interferência política: "Tanto o Estado pode estar interessado em controlar uma indústria privada, como também, o que até é mais usual, uma indústria privada pode estar interessada em manipular o Estado para seu próprio benefício econômico."
Ela voltou à vida pública em 1999, quando o petista Olívio Dutra foi eleito governador, dessa vez apoiado pelo pdt no segundo turno. Levou-a para a mesma Secretaria de Energia. Dilma era uma entre meia dúzia de pedetistas que assumiram postos no primeiro escalão. "Eu já a conhecia e respeitava", disse Olívio Dutra, entre duas bombadas de chimarrão. "E a nomeei também porque ela estava numa posição mais à esquerda no pdt, menos populista."
Leonel Brizola, no entanto, achava que o pdt merecia mais pelo apoio no segundo turno. Argumentava que todos os cargos juntos não representavam 1% do orçamento do governo. Olívio Dutra contou que Brizola, nos telefonemas que lhe dava, pedia mais e mais cargos. Como o governador não cedeu, Brizola passou a pressionar os pedetistas a saírem da administração petista.
Com a proximidade das eleições municipais de 2000, o conflito se acentuou. Brizola queria Collares como candidato e o pt indicava Tarso Genro. Dilma defendia a continuidade da aliança que elegeu Olívio Dutra e, portanto, a candidatura de Tarso Genro. Ela disse à época - em contraste com o apoio que dera à dobradinha Aldo Pinto-Nelson Marchezan - que não aceitava "alianças neoliberais e de direita".
Dilma ficou no cargo e apoiou o candidato petista. Alceu Collares foi para o segundo turno da eleição, numa aliança que congregava, pdt, pfl,ppb, psb, pmdb e pl - e ainda assim Tarso Genro ganhou. Dilma filiou-se ao pt.
Brizola chamou de traidores os que saíram do pdt. "Venderam-se por um prato de lentilhas", disse à imprensa. "Eu afirmei e reafirmo que naquele momento eles foram traidores", ecoou Alceu Collares. Olívio Dutra analisou assim a situação: "Eu sempre disse que seria uma honra enorme se a Dilma viesse para o pt. É claro que eu tive um protagonismo, mas não houve cooptação. Sair do pdt não foi fácil para ela. Mas, naquele momento, eu acho que ela foi visionária."
A engenheira Cláudia Hofmeister, que também trabalhou com Dilma na Secretaria de Energia, contou que, no primeiro mês da gestão, janeiro de 1999, os gaúchos sofreram 31 cortes de energia. A Secretaria organizou então um programa emergencial de obras, com a participação das estatais da área e de cinco empresas privadas, o que resultou em um aumento de 46% na capacidade de atendimento até o final da gestão.
Quis a natureza que o Rio Grande do Sul, como o Paraná e Santa Catarina, escapasse do apagão que infernizou o Brasil no segundo governo de Fernando Henrique Cardoso: não houve seca por lá. "Não havia sentido em fazer um racionamento por solidariedade no Rio Grande, nem em Santa Catarina, nem no Paraná", explicou Pedro Parente, chefe da Casa Civil no governo de Fernando Henrique, a quem coube gerir a crise do apagão. Mesmo assim, o consumo de energia diminuiu na região Sul.
Dilma esteve com Pedro Parente em duas reuniões, e defendeu os interesses do estado e da iniciativa privada gaúcha - ambos queriam receber uma compensação pela redução do consumo, como ocorreu nos estados em que houve o racionamento. Como no Sul a redução do consumo foi voluntária, o governo tucano não cedeu e a secretária botou panos quentes nos ímpetos sulinos. "A Dilma soube administrar a crise entre os grandes consumidores gaúchos de energia e o governo federal", disse Parente. "Ela era pragmática, objetiva e demonstrou que tinha um diálogo fluido com o setor empresarial."


Nas Minas e Energia


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva contou a piauí, em uma entrevista no fim do ano, como conheceu Dilma Rousseff:
Eu sabia que ela era secretária do Olívio Dutra, mas não tinha muito contato, até porque ela era do pdt. Quem cuidava do meu grupo de energia era o Pinguelli Rosa. Então, a gente tinha, a cada ano, três, quatro reuniões com vários engenheiros do setor energético. Já próximo de 2002, aparece por lá uma companheira com um computadorzinho na mão. Começamos a discutir e percebi que ela tinha um diferencial dos demais que estavam ali porque ela vinha com a praticidade do exercício da Secretaria de Minas e Energia do Rio Grande do Sul. Aí eu fiquei pensando: acho que já encontrei a minha ministra aqui. Ela se sobressaiu em uma reunião que tinha quinze pessoas. Pela objetividade e pelo alto grau de conhecimento do setor. Foi assim que ela apareceu no meu governo.
As reuniões com Lula ocorriam no Instituto Cidadania, em São Paulo, que ele montou para fazer as vezes de governo paralelo. O físico e engenheiro nuclear Luiz Pinguelli Rosa era a estrela maior, seguido de Ildo Sauer. A missão deles era elaborar a plataforma da área de energia para a campanha presidencial. Em junho de 2001, Pinguelli convidou Dilma a participar.
"Ela era uma menina tímida no meio de grandes professores", disse Ildo Sauer. "Mas toda hora ela puxava aquele computador, que parecia ter tudo, até análise sobre o aço da palheta da turbina." Algumas vezes Dilma levou, como convidado, o engenheiro Luiz Oscar Becker, seu subordinado na secretaria gaúcha. Já separada de Araújo, Dilma e Becker eram namorados. (A ministra não quis comentar sua ligação com Becker.)
Maurício Tomalsquim, hoje presidente da Empresa de Pesquisa Energética, também participava do grupo. Divergia de Pinguelli e de Sauer, frontalmente contrários às privatizações que o governo promovia no setor - para eles, responsáveis pelo apagão. Tomalsquim era contra o estatismo e Dilma também. "Eles diziam, brincando, que eu era o neoliberal do grupo", contou Tomalsquim. Disse também que estava claro para todos no grupo que, se Lula fosse eleito, o ministro das Minas e Energia seria Pinguelli Rosa.
Mal se anunciou a vitória do pt, Pinguelli Rosa telefonou para Ildo Sauer e disse: "Vamos montar o grupo de transição da área de energia aqui no Rio mesmo, que é mais fácil para mim." O tempo passava, no entanto, e não chegava o convite de Lula. Avaliou-se que o presidente reservara Minas e Energia para o pmdb, com o qual José Dirceu acertava um acordo estratégico. Avaliação errada, segundo José Dirceu. "Lula estava decidido a nomear a Dilma Rousseff", me contou o ex-ministro. "Para o pmdb, discutiam-se outros ministérios, como o de Transportes, o de Comunicações e o da Saúde."
Pesou na decisão de Lula a simpatia que Antonio Palocci tinha pela secretária gaúcha. Mais do que pessoal, a simpatia era política: o ministro da Fazenda estava informado sobre o trânsito fluido que ela mantinha com empresários do setor - assustados com a possível indicação de Pinguelli Rosa - e sabia de sua concordância com a "Carta aos Brasileiros", o documento de campanha que simbolizava a mudança do pt.
Se ainda restassem dúvidas quanto às idéias de Dilma, ela as enterrou numa viagem a Frankfurt, a convite do ministro tucano Pedro Parente. Era um seminário com investidores estrangeiros do setor elétrico, promovido pela Câmara de Comércio e Indústria Brasil-Alemanha. "A presença dela foi muito importante porque os investidores ficaram com uma visão clara de que não haveria ruptura", contou Parente.
Olívio Dutra disse que, "depois da eleição, o Lula me consultou. Eu falei pra ela: 'Olha, Dilma, o Lula vai te convocar para a transição na área de Minas e Energia e eu te digo que tem mais coisas para tu assumir'". O que o Lula viu nela?, perguntei, e ele respondeu: "Um certo comedimento, o fato de ela ter uma visão articulada da área, uma discrição, uma modéstia sem falsidade. Ela com o laptop dela. Está tudo organizado ali. Tem números, elementos, quadros. Ela é sempre afirmativa. Posso ter pesado um pouco na balança naquele momento, mas, da transição para frente, o mérito é todo da Dilma."
A ministra tratou de se aproximar de José Dirceu. "Todo mês, e muitas vezes quinzenalmente, nos encontrávamos para falar de energia, infraestrutura, petróleo e gás, áreas que diziam respeito ao Ministério que ela ocupava, e também de meio ambiente, política e questões pessoais", ele disse. "Sempre tivemos uma relação muito boa." A afinidade de Dilma com o ministro também se solidificou durante o governo.
Dilma levou para o governo de transição, em Brasília, a amiga Maria Regina Barnasque, a Buluga. No começo de dezembro, Dilma recebeu um telefonema. Quando desligou, estava emocionada. Chamou a amiga e disse: "Era ele. Eu vou ser a ministra das Minas e Energia." Buluga correu para o abraço, mas foi contida: "É segredo absoluto. Não podemos nos emocionar." Nos feriados do Natal, foi a vez de Tomalsquim receber um telefonema: Dilma o chamou para ser o secretário-executivo do Ministério.
O que Dilma fez de essencial nas Minas e Energia foram três coisas: cumpriu os contratos do governo anterior, evitou outro apagão e construiu um modelo para o setor elétrico menos estatizante do que queria o modelo Pinguelli-Sauer. Um dos seus interlocutores nessas tarefas foi o empresário Luiz Fernando Leone Vianna, presidente da Associação Brasileira dos Produtores Independentes de Energia Elétrica. Vianna ia tanto ao Ministério que Dilma dizia que ele já tinha uma xícara própria por lá.
"A gestão foi boa porque partiu para um modelo competitivo", disse o empresário, em Brasília. "Ela não só manteve como ampliou o mercado livre de energia, e, mais importante, usou o critério técnico, e não o ideológico. A Dilma participava pessoalmente, ligando, perguntando. Ela ouve, processa e decide. A decisão é toda dela."
Pinguelli Rosa acabou sendo nomeado presidente da Eletrobrás. Dilma contou. a amigos que sempre soube que, fiando-se na amizade com Lula, Pinguelli lhe criaria dificuldades. No início do governo, ele montou uma equipe para discutir a organização da área de eletricidade - o Grupo de Estudo para a Nova Estruturação do Setor Elétrico (Genese), que Dilma logo implodiu.
O ex-preso político Alexandre Magalhães da Silveira foi convidado por Pinguelli Rosa para ser diretor-financeiro da Eletrobrás. Doutor em matemática, ele aceitou o cargo por amizade a Pinguelli e por acreditar que o governo Lula modernizaria o setor. Decepcionou-se logo, quando viu a solidez de feudos cristalizados. Um deles, o da Eletronorte, era comandado pelo senador José Sarney.
Dilma se aborreceu com idéias que Silveira expusera em um encontro com acionistas da Eletrobrás. Numa reunião com os presidentes e diretores de todas as estatais de energia - umas cinquenta pessoas -, no 9º andar do Ministério, ela se exaltou e o atacou com dureza. Ele ouviu o destempero, engoliu em seco e não respondeu. Pinguelli tomou as dores do amigo e subordinado: se disse também desrespeitado e colocou o cargo à disposição. Enquanto Silveira abandonava a sala, a ministra reconsiderou e pediu que Pinguelli continuasse no posto.
Ele continuou à frente da Eletrobrás, mas passou a ironizar as oscilações do humor da ministra: "Essa moça formata o disquete a cada semana", comentava. Silveira ficou mais alguns meses no cargo, não conseguiu a modernização com a qual sonhara e anunciou que deixaria a empresa. O anúncio provocou uma queda das ações da Eletrobrás. A ministra o chamou e empenhou-se em que ele continuasse no posto. Silveira não aceitou. Meses depois, Pinguelli Rosa também saiu, criticando o modelo que foi implantado.
Maurício Tomalsquim disse que, no começo, a ministra não gritava com ele. Quando se conheceram melhor, passou a gritar esporadicamente: "É o jeito dela. Não é pessoal. E em cinco minutos fica tudo bem." Ele lembrou que, quando assumiu o cargo, "o Ministério não tinha quadros próprios. Eram uns dez motoristas, um engenheiro e o resto era tudo funcionário burocrático. Uma falta de estrutura quase total. A Dilma montou a equipe e queria saber tudo nos mínimos detalhes".
O presidente da Light, José Luiz Alquéres, conheceu Dilma Rousseff quando ela era secretária municipal da Fazenda. Ele era diretor da Eletrobrás, e queria que uma estatal gaúcha pagasse uma dívida de bom tamanho. "Lembro que ela foi uma defensora radical dos pontos de vista gaúchos, inteligente e correta", disse em uma sala de reuniões da empresa, no centro do Rio. Mais tarde, quando ela era secretária de Energia, Alquéres era presidente da Alstom no Brasil. Queria comprar uma falida estatal gaúcha de energia, a Ansaldo Coemsa. Nas negociações, a secretária conseguiu que o número de demissões fosse menor.
Alquéres, um especialista do setor, contou que Dilma gostava de aprender. "Às vezes, ela pedia as minhas anotações", lembrou. Em junho de 2003, Alquéres organizou um almoço para ela, em seu apartamento de Ipanema, com vários ex-ministros de Minas e Energia, inclusive os dos presidentes Castelo Branco e Médici. Por sugestão do anfitrião, fizeram uma rodada em que cada um avaliou os problemas da área e a forma de resolvê-los. "Ela mostrou humildade e fez questão de anotar tudo num caderno aramado que tirou da bolsa." Na avaliação do presidente da Light, o modelo que Dilma implantou no setor elétrico "é excelente e está ajudando o segmento". Ele só critica a lentidão com que foi implementado, mas acha que esse foi um problema do governo, e não da ministra.
O diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Adriano Pires, tem uma crítica semelhante: "O setor ficou dois anos sem investimento." Pires acha que a ministra "vendeu a imagem de que não é ambiciosa, de que está ali para servir. Ela é o garçom do presidente".
Ildo Sauer passou a antipatizar com sua companheira do Instituto de Cidadania quando foi visitá-la no Ministério para lhe entregar o livro A Reconstrução do Setor Elétrico Brasileiro. Fruto das antigas discussões, o livro defende a visão estatizante. Dilma o abriu, deu uma folheada e logo disse que discordava de muita coisa. Sauer aceitou, tempos depois, o cargo de diretor de Gás e Energia da Petrobras.
Foi outra pedra no sapato da ministra. "Se vocês não se enquadrarem, eu chamo o presida", dizia Dilma a Sauer e a outros diretores da Petrobras, inclusive ao presidente, Sergio Gabrielli, nos momentos de maior divergência. Num deles, sobre o preço mínimo do gás num leilão de energia, o presida foi efetivamente chamado a decidir a questão. Organizou-se uma reunião, numa tarde de sábado. A ministra quase não deixava Gabrielli e os diretores falarem. "Eles estão enrolando o senhor, presidente", dizia. "Isso não é como eles estão dizendo", atalhava. "Deixa eles falarem, Dilma", teve que pedir o presidente, mais de uma vez. Divergindo da ministra, em 2007 Sauer deixou o cargo.
Luciano Zica cumpriu três mandados como deputado federal do pt e hoje não quer mais saber de política. Zica, que conheceu e ficou amigo de Dilma em 2001, disse que "ela era vibrante, tinha uma grande capacidade de convencimento e era muita astuta na argumentação". A ministra não se aborreceu quando ele chegou atrasadíssimo para um almoço.
As coisas mudaram quando o deputado divergiu das condições em que se daria a sexta rodada do leilão de áreas de exploração de petróleo. Como não convenceu a ministra a acolher suas ponderações - que hoje considera "meio quixotescas" -, Zica levou-as formalmente ao presidente Lula e pediu a suspensão do leilão.
"Aí ela ficou brava", ele contou. "Me ligou, me chamou de desleal, foi muita dura, bastante autoritária, esqueceu que, além de amigo, eu tinha um mandato parlamentar." Ficou-lhe na memória uma frase dela: "Pô, meu, você pisou na bola." Na avaliação da ministra, a desavença com Zica "foi uma questão de governo, e não pessoal. Porque um deputado do governo não entra com uma ação contra o governo sem avisar". Para o ex-deputado, o episódio mostrou que "a Dilma é a pessoa mais democrática do mundo, desde que se concorde 100% com ela".
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