Luiz maklouf carvalho revista Piauí






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* Correção: 14 de abril de 2009.
Na versão impressa da revista constava que o Luben tinha hoje 80 anos, mas ele faleceu em 1997. Dizia também "lagoa do Guaíba" em vez de "rio Guaíba".
Depois da cadeia


Quando Dilma Rousseff era ministra das Minas e Energia, perguntei-lhe em que condições de saúde deixara a prisão. "Ninguém sai disso sem marcas", respondeu em um gabinete da sede da Presidência da República em São Paulo. Foram três anos de cadeia: de janeiro de 1970, quando foi capturada no centro de São Paulo, ao final de 1972, quando saiu, 10 quilos mais magra, do Presídio Tiradentes. Estava com cerca de 57 quilos, usava manequim 42, tinha 25 anos, e a ditadura que a prendera e torturara, nove.
Uma das marcas à qual a ministra se referiu foi uma disfunção na tireóide, glândula no pescoço cuja principal função é a produção e armazenamento de dois hormônios que auxiliam a regular a taxa do metabolismo e afetam outros órgãos. "Um ano depois que saí da cadeia, a minha tireóide estava completamente detonada", contou. "Foi a forma como o meu organismo reagiu a tudo aquilo. Desenvolvi um hipertiroidismo [produção excessiva de hormônios] e depois um hipo [o contrário]. Foi uma somatização. Mas me tratei e fiquei boa."
No final do mês passado, um dia depois da última sessão de quimioterapia para evitar a volta de um câncer linfático, Dilma Rousseff tinha certeza de que ficaria boa. "Estou felicíssima", ela me disse. "Primeiro, porque foi a última aplicação. Em segundo, porque em 14 de julho se encerra o ciclo de 21 dias durante o qual o organismo elimina os produtos tóxicos. Então, no dia 14 de julho vou estar sem o menor traço de consequências da doença."
A ministra acha que a quimioterapia, que ela pensava que pudesse ser "muito desagradável", não chegou a tanto. Para ela, o mais difícil foi perder o cabelo. "Mas não foi tanto assim. Perdi cabelo em vários locais, e preferi raspar tudo para não ficar caindo aos poucos", disse. "E teve um efeito gratificante: é bom sentir a água escorrendo direto na cabeça." A ministra riu e completou: "Você não pode deixar de procurar as coisas boas. E o cabelo vai crescer, vai voltar."
Além da quimioterapia, a ministra fez acupuntura, melhorou a alimentação e manteve as caminhadas, apesar de, nos dias em que esteve mais frágil, "andar a passo de elefantinho", conforme disse. "Eu caminhava uma hora, e agora depende. Se é logo depois da quimio, ando 40 mi-nutos, e depois vou para 45; o máximo a que chego são 50 minutos. Isso foi bom porque mantive uma pressão ótima." De bom -humor, ela reclamou dos fotógrafos: "De manhã cedo, você há de convir, você não está caminhando do jeito mais bonito. Você está com aquela cara de horror. E os fotógrafos fazendo téc para lá e para cá. O meu cachorro, o Nego, está traumatizado. Eu não vivo sem cachorro."
Ao sair da prisão, em 1972, ela passou uma temporada em Minas, onde fora se recuperar com a família, passou pela casa de uma tia em São Paulo e se mudou para uma casa na avenida Copacabana, à beira do rio Guaíba, em Porto Alegre. Era a residência de seus sogros - Afrânio Araújo, advogado trabalhista e comunista de velha cepa, e sua esposa Marieta. A moradia provisória do namorado de Dilma, Carlos Franklin de Araújo, ex-dirigente da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares, podia ser vista da varanda da casa: o presídio da ilha das Pedras Brancas, onde ele cumpria seu terceiro ano de pena.
Ela trocou o uai pelo tchê para estar próxima de Araújo, a quem chama carinhosamente de "Gordo". Os meses que passaram no Presídio Tiradentes - com alguns encontros íntimos e muitas trocas secretas de bilhetes - apontavam um futuro para o romance. Um futuro mais calmo do que o ano em que namoraram durante a perigosa agitação da clandestinidade, com a cabeça a prêmio.
Dilma visitou Araújo na ilha. O garoto Leandro, filho do seu primeiro casamento, também. Na mesma agradável varanda às margens do Guaíba, Araújo recordou: "Ela levava comida, cigarro, muitos jornais. Falávamos sobre a nossa vida afetiva, do filho que queríamos ter e do nosso futuro político, sobre como e onde retomar a militância. Não tinha visita íntima não, mas a gente sempre dava um jeitinho."
Deputado estadual por São Paulo, Rui Falcão, dirigente do Partido dos Trabalhadores, passou quase três anos no presídio da ilha. "A Dilma nos enchia de informação, era simpática, solidária e muito carinhosa", lembrou. Também estava lá Raul Pont, velho parceiro do Presídio Tiradentes. "Ela levava livros políticos disfarçados de romances", contou o ex-prefeito de Porto Alegre e hoje deputado estadual do pt no Rio Grande.
Araújo mora sozinho. Levanta às três da manhã, trabalha de madrugada, faz exercícios, chega ao escritório às cinco e meia. Costuma passar no escritório aos sábados e domingos. Volta e meia tem problemas com um enfisema pulmonar diagnosticado nos anos 90. E, às vezes, como em maio passado, tem que passar uns dias no hospital. Nas crises mais sérias, a ministra pega um avião em Brasília para visitá-lo.
No meio da tarde, a empregada veio perguntar se ele queria algo especial para o jantar. Não queria. O freezer estava abastecido com cervejas e, de quando em quando, ele pegava uma garrafa. Contou que foi dos últimos presos a sair da ilha, quando a cadeia foi desativada. Cumpriu o resto de pena no Presídio Central, onde Dilma o visitava duas vezes por semana.
Em junho de 1974, Afrânio Araújo morreu de infarto. O filho teve autorização para ir ao enterro - com escolta e vigilância - e receber, com Dilma, as condolências do mundo jurídico gaúcho. Por conta do prestígio de Afrânio, a cadeia já não era tão rigorosa. E, com a sua morte, amigos juristas pressionaram para que fossem resolvidas rapidamente as pendências processuais que mantinham Carlos Araújo no Presídio Central. Uma semana depois ele foi solto.
Araújo e Dilma haviam combinado morar num apartamento que ela já havia alugado, mas acabaram ficando na casa à beira do rio. O menino Leandro era uma presença frequente ali. Dilma fazia cursinho para prestar vestibular em ciências econômicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. E tinha um grupo de estudos com dois amigos, também ex-presos políticos. "Ela era uma guria extremamente alegre, muito companheira e carinhosa", disse um deles, Carlos Alberto de Re, o "Minhoca", diretor do teatro da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul em Porto Alegre. "Varávamos a madrugada estudando. Ela sabia mais do que nós, até por já ter sido universitária. Tinha método e disciplina, e não deixava o estudo ficar disperso."
O outro integrante do grupo era Calino Pacheco Filho, com quem Dilma fez o curso de ciências econômicas, concluído em 1977. "Cuidamos de estudar, não tivemos participação ativa no movimento estudantil", disse Pacheco Filho em sua sala da Fundação de Economia e Estatística, a fee, órgão do governo gaúcho. Depois da cadeia, o primeiro emprego remunerado de Dilma, Minhoca e Pacheco Filho foi de estagiários da Fundação.
A retomada da militância política, dessa vez legalmente, deu-se no Instituto de Estudos Políticos e Sociais, o Iepes, mantido pelo partido oficial de oposição, o mdb, presidido no Rio Grande por Pedro Simon. "Ela era uma jovem bonita e uma mulher firme", contou o senador. Sem ter se filiado ao mdb, Dilma organizou debates no Instituto. Iam lá, dar palestras concorridas, intelectuais como Fernando Henrique Cardoso, Francisco Weffort e Chico de Oliveira.
Na campanha eleitoral de 1976, Araújo e Dilma se empenharam para eleger vereador o emedebista Glênio Peres, casado com Lícia Peres. Eleito, Peres foi logo cassado por ter feito um discurso denunciando a tortura. "Nós simpatizamos de cara e logo ficamos amigas, como somos até hoje", contou a socióloga, que também é integrante do Diretório Nacional do pdt.
Com Araújo, que não gosta de viajar, Dilma foi à Europa uma vez. Com Lícia Peres, foi três, fora uma outra viagem aos Estados Unidos. Lícia se lembra de ter ido com a amiga a óperas, museus e de terem visitado a casa onde Marcel Proust passava férias, em Illiers-Combray. Ela disse que nos momentos muito difíceis, como a morte de Glênio e, anos depois, um câncer no seio, Dilma foi "absolutamente solidária".
No apartamento de Lícia há na sala uma estante abarrotada de livros. Alguns deles lhe foram dados de presente por -Dilma, como O Mar, do irlandês John -Ban-ville. "Lícia, há muito eu quero lhe mandar este livro. Feliz Natal. Um abração", escreveu ela na dedicatória em dezembro de 2007. Um dos momentos mais tocantes do romance, vencedor do prestigiado Booker Prize, é a constatação de um diagnóstico de câncer. A mulher do narrador, Anne, pergunta ao médico: "E então, doutor - disse ela, um pouco alto demais, dando à voz o tom forte e agudo daquelas atrizes de cinema dos anos 40 -, é a sentença de morte ou tenho esperanças?" Ele respondeu: "Ah, não vamos deixar que a senhora se vá assim, senhora Morden. Pode ter certeza de que não vamos, não."
Dilma falou que gostou muito de O Mar, mas não é dos seus romances de cabeceira. "É um livro de época", afirmou. No momento, ela lê o romance A Trégua, do uruguaio Mario Benedetti, recentemente falecido, e uma coletânea de contos do russo Isaac Babel. Um dos livros que mais lhe chamou a atenção foi Um Estadista do Império, de Joaquim Nabuco. Foi no período em que, como contou, "estava interessadíssima no Segundo Império, e comprei a Coleção Brasiliana".
Além da literatura, Dilma adora artes plásticas. A ponto de dizer: "Só tenho uma tristeza na vida: não tenho o menor talento. Já tentei pintar, mas talento você tem ou não. E eu não tenho." Ela armazena no laptop reproduções da suas obras preferidas. É uma galeria eclética. Lá estão Katsushika Hokusai ("aquele da onda, de mil setecentos e pouco, período Edo"), Lucas Cranach, Bosch, Luca della Robbia ("por suposto"), Caravaggio, Matisse ("gosto muito do Matisse. Ele trabalhou em uma manufatura de tecido e era tecelão"), Remedios Varo ("é uma pintora mexicana, tem um quadro dela que eu amo: Natureza Morta Ressuscitando, que é um barato, e tem outro que também é muito bonito, Bordando o Manto Terrestre"), Iberê Camargo, Renoir.
Uma outra amiga, a psiquiatra Vera Stringuini, lembrou ter perguntado uma vez a Dilma: "O marxismo é ou não é uma ciência?" E de ter obtido como resposta uma outra pergunta: "E o Super-Homem é um pássaro ou é um avião?" As duas aprenderam a dirigir na mesma época e tinham um gosto literário semelhante. "Tivemos a fase Saramago, a fase de ficção científica, principalmente Ray Bradbury, e a fase da tragédia grega", disse. As duas foram alunas de um curso do dramaturgo gaúcho Ivo Bender. Durou um ano, com aulas semanais no auditório da fee. Estudaram peças de Ésquilo, Eurípedes e Sófocles. "Às vezes, chorávamos de emoção durante as aulas", contou.
"A Dilma se apaixonou por Filoctetes, do Sófocles", contou Vera. Filoctetes, personagem que aparece na Ilíada e na Odisséia, era um exímio arqueiro grego. Quando partia para a guerra de Tróia, uma mordida de cobra infeccionou-lhe gravemente o pé. Os companheiros não aguentaram o cheiro fétido e os lancinantes gritos de dor do arqueiro e o abandonaram numa ilha deserta.
"A peça é uma obra-prima", justificou Dilma. "Filoctetes era um chato de galocha. Reclamava o tempo inteiro que a perna estava ferida. Largar ele na ilha é uma solução dentro de uma ética que não é a judaico-cristã. A ética grega não é boazinha, não tem culpados."
Foi para Vera Stringuini que Dilma ligou pedindo o telefone do cirurgião plástico Renato Vieira, que já reformara as pálpebras das duas. E foi Vieira quem fez, na virada do ano, a segunda plástica na ministra.
Paula Rousseff Araújo, a filha do casal, nasceu em março de 1977, quando Dilma tinha 29 anos. Amigas dizem que ela era um tanto desajeitada para as tarefas práticas. "Foi por isso que dei de presente para ela uma montanha de fraldas", contou a psiquiatra Vera. Quando Paula não parava de chorar, a mãe a colocava no carro e dirigia a esmo até que o balanço a fizesse dormir.
Com Paula crescendo, a mãe retomou os estudos. Queria fazer mestrado na Universidade Estadual de Campinas, a Unicamp, distante uma hora de São Paulo. Às vezes, levava a filha, que ficava no apartamento alugado com uma babá. Paralelamente, Dilma participava de um grupo de discussão com meia dúzia de ex-militantes da var-Palmares. Um deles era Rui Falcão. Outro, Roberto Espinosa, com quem estivera presa.
O grupo, que se reunia em São Paulo, contou com a participação esporádica de Carlos Araújo, que já tomara a decisão de militar no trabalhismo. "Nós aprofundávamos a autocrítica sobre a experiência do passado e discutíamos novos caminhos", disse Espinosa. "Líamos Marx e também renovadores do marxismo como Poulantzas e Althusser." Na lembrança do deputado Rui Falcão, o grupo durou uns dois anos, com reuniões trimestrais. "Não era nostalgia, mas um encontro para troca de informações, para se manter atualizado e avaliar o momento em que a atividade política poderia ser retomada", contou o deputado.
O site oficial da Casa Civil informa que a ministra é "mestre em teoria econômica pela Universidade de Campinas (Unicamp) e doutoranda em economia monetária e financeira pela mesma universidade". Na Plataforma Lattes, a base de dados de currículos e instituições das áreas de ciência e tecnologia, o currículo de Dilma Vana Rousseff registra um mestrado em ciência econômica, na Unicamp, em 1978-1979, com a dissertação "Modelo energético do estado do Rio Grande do Sul", sob a orientação do professor João Manoel Cardoso de Mello. Informa também que ela começou, em 1998, um doutorado em ciências sociais aplicadas - mas não dá o nome do orientador nem o da tese de doutorado.
"Dilma Vana Rousseff nunca se matriculou em nenhum curso de mestrado na Unicamp", informou o diretor de registro acadêmico Antônio Faggiani. Pedi que, além de consultar no sistema informatizado, ele verificasse também o arquivo morto, que abriga os documentos em papel da Unicamp. Isso feito, Faggiani confirmou a informação: "O que existe, oficialmente, é a matrícula no curso de doutorado, em 1998, abandonado em 2004, quando acabou o prazo para a integralização dos créditos."
Ao saber da posição oficial da universidade, a ministra me disse: "Fiz o curso de mestrado, mas não o concluí e não fiz dissertação. Foi por isso que voltei à universidade para fazer o doutorado. E aí eu virei ministra e não concluí o doutorado." Em resumo, o site da Casa Civil está errado: Dilma não é nem mestra nem doutoranda.
Araújo e Dilma participaram das articulações, lideradas por Leonel Brizola, para a recriação do Partido Trabalhista Brasileiro. Quando Ivete Vargas ganhou a sigla ptb, entraram no pdt brizolista. "Nossa dedicação foi integral", disse Araújo. Ele foi três vezes consecutivas deputado estadual - de 1982 a 1994 - e duas vezes candidato a prefeito, perdendo primeiro para Olívio Dutra e depois para Tarso Genro. Jogou a toalha em 1994, depois do diagnóstico de enfisema pulmonar. "O meu sonho era ser prefeito e governador. Não deu, paciência", comentou.
Em novembro de 1977, quando estava na fee, Dilma tomou um susto: seu nome apareceu no jornal O Estado de S.Paulo como um dos 97 funcionários acusados de serem subversivos infiltrados na máquina pública, apontados pelo general Sylvio Frota, ministro do Exército que acabara de ser exonerado pelo ditador Ernesto Geisel. A relação dos nomes, com um resumo dos antecedentes políticos de cada um, constava de uma carta que Frota divulgara.
Dilma era qualificada como militante da var-Palmares e do Comando de Libertação Nacional, o Colina, "amasiada com o subversivo" Carlos Araújo. Na lista estavam também o hoje vice-governador de São Paulo, Alberto Goldman, e o então secretário de Economia e Planejamento do estado, Jorge Wilheim. Entre os gaúchos da fee, havia mais quatro nomes, que, junto com Dilma, foram prontamente demitidos. Sinval Guazelli os anistiou e reconduziu aos cargos quando foi eleito governador do Rio Grande do Sul, em 1977.
Seu segundo emprego, na primeira metade dos anos 80, foi de assessora da bancada do pdt na Assembléia Legislativa gaúcha. Uma de suas amigas, também pedetista, e até hoje por lá, foi a advogada Maria Regina Barnasque, a "Buluga", como Dilma a apelidou. "Ela tinha uma personalidade forte e mostrava uma grande habilidade política", disse Buluga. Ela jurou que, naquele período, Dilma jogava no time de vôlei feminino do pdt.
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